I
Pois que os deuses antigos e os antigos
Divinos sonhos por esse ar se somem,
E á luz do altar da fé, em Templo ou Dolmen,
A apagaram os ventos inimigos;
Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos,
Seccos á mingua de agua, se consomem,
E os prophetas d'outrora todos dormem
Esquecidos, em terra sem abrigos;
Pois que o céo se fechou e já não desce
Na escada de Jacob (na de Jesus!)
Um só anjo, que acceite a nossa prece;
É que o lyrio da Fé já não renasce:
Deus tapou com a mão a sua luz
E ante os homens velou a sua face!
II
Pallido Christo, oh conductor divino!
A custo agora a tua mão tão doce
Incerta nos conduz, como se fosse
Teu grande coração perdendo o tino…
A palavra sagrada do Destino
Na bocca dos oraculos seccou-se:
A luz da sarça ardente dissipou-se
Ante os olhos do vago peregrino!
Ante os olhos dos homens—porque o mundo
Desprendido rolou das mãos de Deus,
Como uma cruz das mãos d'um moribundo!
Porque já se não lê seu nome escrito
Entre os astros… e os astros, como atheus,
Já não querem mais lei que o infinito!