Da Hespanha… e são traições,
Á noite, por traz dos brejos,
—Mão na faca e mão nas costas—
E dê cá… e são bocejos.

É d'estes lados que sopram…
E são os ventos assim…
Levando os cedros do monte
Como os lyrios do jardim…

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E, comtudo, no meio da alegria
Terrivel, que enche o espaço como o ecco
Das grandes trovoadas—e debaixo
De tantos ventos e de tantos climas,
A Alma—a flor do Paraiso antigo—
Lyrio bello do valle—peito humano,
A Sulamite da Sião celeste—
A Psyche triste e palida, que vaga
Nas praias do infinito—a Alma, oh homens,
Em meio do folgar que vae no mundo,
Cada vez chora mais e mais soluça,
E mais saudosa—a eterna expatriada!—
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É que o rir do leão sempre é rugido—
E isto, que sae da bocca tenebrosa
Do mundo—e o mundo escuro diz Progresso,
E Força, e Vida, e Lei—isto é soluço
Que sae do peito condemnado,—e quando
Vae a sahir, para illudir o misero,
Diz á bocca: «Olha tu como nós rimos»…
Mas não é mais que o arranco da agonia!
Nem pode ser.—Aquelle riso enorme
Quando sae é co'o ruido das tormentas
E, como as grandes aguas, vae rolando,
E esmaga… e não consola!
É como a orgia
Que cuidando folgar… se está matando!
E como esses que dizem dos rochedos
Que brincam com as ondas… quando as partem!

Não é o riso bello da Harmonia,
É apenas gargalhada de Possessos!
Ha dentro d'este mundo algum demonio,
Que o obriga a torcer assim a bocca
Lá quando mais se agita e mais lhe dóe!
Senão, olhae e vêde essa alegria
—Quer seja Idéa ou Força ou Arte, ou seja
A Industria ou o Prazer—de qualquer lado
Que rebente dos labios—vêde como
Faz frio a quem a vê! como entristece
Vêr o gigante louco dar-se beijos
Como em mulher formosa… e ao longe, ao longe
Todo o campo alastrado de flôr's mortas!
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Mas basta! A luz doirada
Um dia hade surgir!
E a venda, d'esses olhos,
Por fim tambem cahir!

E a Gargalhada immensa
Fechar a horrivel bocca!
E ser canto suave
Essa atroada rouca!
Então!………………
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Alma, que sonhas?
Que louco desvairar!…
Então!!… Mas—Hoje—esta hora…
É toda p'ra chorar!

Coimbra, Novembro, 1863.