XIX
Á ITALIA
Á ITALIA
POESIA RECITADA NO THEATRO ACADEMICO POR A. FIALHO DE MACHADO
na noite de 22 de outubro de 1862
Italia e Portugal! que duas patrias!
Ambas tam bellas, tam amadas ambas!
Uma, a patria do berço; outra a das almas:
Uma, a das artes; outra a dos combates!
Oh! deixae que hoje, aqui, sobre o meu peito,
As estreite, a final.—Ha quanto tempo
Eu quizera juntar-vos, pelas frontes,
Beijar-vos, bem unidas, soluçando,
Como quem, tendo pae, mãe encontrasse.
Portugal! nobre filho de guerreiros!
Viste, primeiro, o sol da liberdade,
Mais feliz, não maior e nem mais digno
Que tua irmã, a Italia.—Ella, entretanto,
Chorava, olhando o céo, negro de nuvens!
Cobriram-n'a de affrontas! sobre os hombros
A toga negra, já como sudario:
O seu corpo partido em dez retalhos:
O extrangeiro assentado nos seus lares…
E não se via sol no céo da Italia!
Dizei-me vós, se pode o grande rio
Existir, sem que as fontes o basteçam?
Se pode quem nasceu fadado ás glorias,
Esquecido morrer? Se os fortes netos
De Mario e de Catão, ir assentar-se
Sosinhos sobre o tumulo dos fortes
—Olhos no chão e pulsos algemados?
Se é possivel que exista um povo—um povo!—
Sem ser livre, e sem sol o céo da Italia?!