E eu sou teu filho! A um filho desgraçado
Que hade um pae recusar? Oh, dá-me arrimo,
Estende-me tua mão por sobre o abysmo.

XXXII

FIAT LUX!
(POEMETO)

FIAT LUX!

Et terra erat inanis et vacua.

Tinham os astros já mil annos,—tinham
Talvez cem mil—ou tinham um minuto—
(Pois quem sabe contar horas ou seculos
No relogio—que tem o firmamento
Por quadrante,—e algarismos, sóes e estrellas?)

'Stavam ha muito ali.
O velho Cahos,
O oleiro do infinito, que entre as duas
Mãos—o tempo e o espaço—os amassára,
Cansou por fim tambem de fazer mundos,
Não tendo já mais barro, nem mais raios
Com que o barro pintar.

Ora, limpando
As mãos, que estavam sujas do trabalho,
E esfregando uma palma contra a outra,
Soprou depois os restos, sem vêr onde,
Por esse abysmo além.

Oh pó de mundos!
Migalha dos banquetes do Principio!
Triste parto das sombras, atirado
Sobre o berço de luz do firmamento!
Morcêgo horrivel, meio tonto e cego,
Cahido no salão de lustres de astros!