O pó soprado, informe bola escura,
Como filho engeitado, que se esconde
Pela sombra dos muros, foi rolando
Pelos cantos do espaço, involto em trevas…
Que o não vissem os sóes.
* * * * *
E foi descendo,
Extranho, negro, horrivel, monstruoso.
E, quanto era maior a treva, ainda
Mais o medo crescia que o olhassem…
E mais o horror de si o endoudecia…
E mais girava, immenso já de inchado
De terror e delirio!
Os grandes astros
Como um viveiro immenso de fulgores
Atiravam, de sol em sol, as notas
Do eterno concerto…
* * * * *
E foi rolando,
Vertiginoso e bebado de horrores!
O feio, ebrio da mesma fealdade!
O mal, possesso do seu mal! As trevas
Cheias de medo de se vêr tão negras!
E o firmamento arfava n'um delirio
De harmonia e ventura! O espaço ardente
Suava luz—girando no infinito—
Pelos póros do céo… que são estrellas.
* * * * *
Oh! como a ave da noite eterna, ao vêr-se
Dentro do dia eterno… endoidecia!
Como rolava tonta a um lado e ao outro
Batendo as duas azas—Sombra e Espanto,—
Por todo esse infinito já não via
Um só buraco que a escondesse!