Ouviu-se desde baixo
Vir subindo um suspiro—e quantos éccos
Da antiga confusão ha 'hi no espaço:
E todas as tristezas que ficaram
Dos combates de outr'ora: e os soffrimentos
De quantas luctas houve, antes do tempo:
E essas mil dôres, e essas mil torturas,
Que custou cada sol: todo esse inferno
De negrumes, que o céo lançou, despindo-os,
Quando quiz ser só luz… de ais e gemidos
Quando quiz ser só canto… a parte infame
Que na injusta partilha coube ao Abysmo…
Tudo isto, no suspiro do captivo,
—Triste, mas grave; queixa, mas não súpplica…
Antes accusação,—na voz debaixo
Tudo isto ali subiu!

* * * * *

Os grandes astros
Enfiaram de pasmo e emudeceram!
E, se em seios de luz ha 'hi remorsos,
Sentiram-no n'essa hora…

* * * * *

Então abriram-se
As portas do silencio—e, como um sôpro
Que agitasse as espheras, voz sem timbre
(Se ha ouvir…) se ouviu: «Quem faz chorar o Abysmo

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Oh! o grande bem e a grande formosura,
Que tendo a estrella e o céo, inclina a face
Para a grande abjecção! A Aurora immensa,
Que quer saber quem escurece a Treva!
A ventura sem fim, que se conturba
Porque a desgraça soffre!

O Abysmo horrivel
Sentiu que seus mil males vacillavam,
Sobre a base da eterna injúria, e se íam
Co' esse sôpro de amor.—E estranho, e pávido,
Duvidou se soffria e teve, em sonho,
Como visões do céo d'onde o lançaram…
E quasi perdoou…

'Stava adorando!

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