A João de Deus.
Se é lei que rege o escuro pensamento
Lutar—em vão—á cata da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;
É lei tambem, (embora grão tormento)
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
Em tanta confuzão, em tanto engano,
O que ha-de a alma escolher? se crê, duvida;
Se procura, só acha… o desatino.
Só Deus póde acudir em tanto dano:
Alimente-se a esprança d'outra vida,
Seja a terra degredo, o ceu destino.
XX.
Ignoto Deo.
Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquele
Que tanta vez pecou, porem, contrito,
Tanta vez tem erguido a ti o grito
Da aguia que o tufão no alto compele.
E a aguia sofre tambem, como ave imbele,
E mais que ela (que pôe mais alto o fito)
Mas da aguia, que lutou, o brado aflito.
Senhor! o teu ouvido não repele.
Eu não cáio, meu Deus, sem ter lutado;
Fraco sou, por que sou de barro e limo,
Porem na tua Lei medito e sismo.