MORS LIBERATRIX
Na tua mão, sombrio cavalleiro,
Cavalleiro vestido de armas prêtas,
Brilha uma espada, feita de comêtas,
Que rasga a escuridão, como um luzeiro.
Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo involto na noite que projectas…
Só o gladio de luz com fulvas bétas
Emerge do sinistro nevoeiro.
—«Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavalleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.
Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,
Mas consólo… Subverto, mas resgato…
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»
O INCONSCIENTE
O espectro familiar que anda comigo,
Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ancioso espreito e sigo,
É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto…
Ante esse vulto ascetico e composto
Mil vezes abro a bôca… e nada digo.
Só uma vez ousei interrogal-o:
—«Quem és (lhe perguntei com grande abalo),
Fantasma a quem odeio e a quem amo?
—Teus irmãos (respondeu), os vãos humanos,
Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos…
Mas eu por mim não sei como me chamo…