No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus proprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões…

Numa espiral, de estranhas contorsões,
E donde sáem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições…

—Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitaes com formidavel calma,
Levados na onda turva do escarceo,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões miserrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…

QUIA AETERNUS

(A Joaquim de Araujo)

Não morreste, por mais que o brade á gente
Uma orgulhosa e van philosophia…
Não se sacode assim tão facilmente
O jugo da divina tyrania!

Clamam em vão, e esse triunfo ingente
Com que a Razão—coitada!—se inebria,
É nova forma, apenas, mais pungente,
Da tua eterna, tragica ironia.

Não, não morreste, espectro! o Pensamento
Como dantes te encara, e és o tormento
De quantos sobre os livros desfalecem.

E os que folgam na orgia impia e devassa
Ai! quantas vezes, ao erguer a taça,
Param, e estremecendo, impalidecem!