Eu não: minh'alma humilde mas robusta
Entra crente em teu atrio funerario:
Para os mais és um vacuo cinerario,
A mim surri-me a tua face adusta.
A mim seduz-me a paz santa e inefavel,
E o silencio ideal do Inalteravel,
Que involve o eterno amor no eterno lucto.
Talvez seja peccado procurar-te,
Mas não sonhar comtigo e adorar-te,
Não-ser, que és o Ser unico absoluto.
DIVINA COMEDIA
(Ao Dr. José Falcão)
Erguendo os braços para o ceu distante
E invectivando os deuses invisiveis,
Os homens clamam:—«Deuses impassiveis,
A quem serve o destino triumphante,
Porque é que nos creastes?! Incessante
Corre o tempo e só géra, inextinguiveis,
Dôr, peccado, illusão, luctas horriveis,
Num turbilhão cruel e delirante…
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dôr nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz ainda mais triste,
Dizem:—«Homens! porque é que nos creastes?»