Muitas vezes, é certo, na canceira,
No tedio extremo dum viver maguado,
Para ti levantei o olhar turbado,
Invocando-te, amiga derradeira…
Mas não te amava então nem conhecia:
Meu pensamento inerte nada lia
Sobre essa muda fronte, austera e calma.
Luz intima, afinal, alumiou-me…
Filha do mesmo pae, já sei teu nome,
Morte, irman coeterna da minha alma!
V
Que nome te darei, austera imagem,
Que avisto já num angulo da estrada,
Quando me desmaiava a alma prostrada
Do cansaço e do tedio da viagem?
Em teus olhos vê a turba uma voragem,
Cobre o rosto e recua apavorada…
Mas eu confio em ti, sombra vellada,
E cuido perceber tua linguagem…
Mais claros vejo, a cada passo, escritos,
Filha da noite, os lemmas do Ideal,
Nos teus olhos profundos sempre fitos…
Dormirei no teu seio inalteravel,
Na communhão da paz universal,
Morte libertadora e inviolavel!
VI
Só quem teme o Não-ser é que se assusta
Com teu vasto silencio mortuario,
Noite sem fim, espaço solitario,
Noite da Morte, tenebrosa e augusta…