Atravesso, no escuro, a nevoa fria
Dum mundo estranho, que povôa o vento…
E meu queixoso e incerto sentimento
Só das visões da noite se confia.

Que misticos desejos me enlouquecem?
Os abismos do Nírvana apparecem
A meus olhos, na muda immensidade!

Nesta viagem pelo ermo espaço,
Só busco o teu encontro e o teu abraço,
Morte! irman do Amor e da Verdade!

III

Eu não sei quem tu és—mas não procuro
(Tal é minha confiança) devassal-o.
Basta sentir-te ao pé de mim, no escuro,
Entre as fórmas da noite, com quem falo.

Atravez do silencio frio e obscuro
Teus passos vou seguindo, e, sem abalo,
No cairel dos abismos do Futuro
Me inclino á tua voz, para sondal-o.

Por ti me engolfo no nocturno mundo
Das visões da região innominada,
A ver se fixo o teu olhar profundo…

Fixal-o, comprehendel-o, basta uma hora,
Funerea Beatriz de mão gelada…
Mas unica Beatriz consoladora!

IV

Longo tempo ignorei (mas que cegueira
Me trazia este espirito enublado!)
Quem fosses tu, que andavas a meu lado,
Noite e dia, impassivel companheira…