E, no meio da noite monstruosa,
Do silencio glacial, que paira e estende
O seu sudario, donde a morte pende,

Só uma flôr humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existencia,
Desabroxa no fundo da consciencia.

II

Dorme entre os gelos, flôr immaculada!
Luta, pedindo um ultimo clarão
Aos soes que ruem pela immensidão,
Arrastando uma aureola apagada…

Em vão! Do abismo a bôca escancarada
Chama por ti na gélida amplidão…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás tambem. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha de echoar, e teu perfume extremo

No vacuo eterno se esvahirá disperso,
Como o alento final dum moribundo,
Como o ultimo suspiro do Universo.

ANIMA MEA

Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente,
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de vêr a funebre bacchante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»