—Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a bôca fria).

Eu não busco o teu corpo… Era um tropheu
Glorioso demais… Busco a tua alma—
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»

ESTOICISMO

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espirito de eterna negação,
Teu halito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras…

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como num sonho mau, só oiço um não
Que eternamente echôa entre as esféras…

—Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Oppôr á Sorte a queixa do egoísmo…

Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores
A esperança van, seus vãos fulgores…
Sabe tu encarar sereno o abismo!

O CONVERTIDO

(A Gonçalves Crespo)

Entre os filhos dum seculo maldito
Tomei tambem logar na impia meza,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ancia impotente de infinito.