(A João de Deus)

Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia…
Mas tão longe… que até dizer podia
Que emquanto lá andei, andei sonhando…

Porque era tudo ali aério e brando,
E lucida a existencia amanhecia…
E eu… leve como a luz… até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando…

Cahi e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena féra,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito féra…
—É assim que rujo entre leões agora!

NÍRVANA

Para além do Universo luminoso,
Cheio de fórmas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida…
Numa immobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso…

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturaes,

Á bella luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A illusão e o vasio universaes.