Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E o que é mais, dentro em mim—que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de ideias,
Que são o meu principio, meio e fim…

Que extranho ser és tu (se és ser) que assim
Me arrebatas comtigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De incanto e de pavor… de não e sim…

És um reflexo apenas da minha alma,
E em vez de te encarar com fronte calma
Sobresalto-me ao vêr-te, e tremo e exoro-te…

Falo-te, calas… calo, e vens atento…
És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado… és um tyranno, e adoro-te!

IGNOTUS

Onde te escondes? Eis que em vão clamamos,
Suspirando e erguendo as mãos em vão!
Já a voz enrouquece e o coração
Está cançado—e já desesperamos…

Por ceu, por mar e terras procuramos
O Espirito que enche a solidão,
E só a propria voz na immensidão
Fatigada nos volve… e não te achamos!

Ceus e terra, clamai, aonde? aonde?—
Mas o Espirito antigo só responde,
Em tom de grande tedio e de pezar:

—Não vos queixeis, ó filhos da anciedade,
Que eu mesmo, desde toda a eternidade,
Tambem me busco a mim… sem me encontrar!

NO CIRCO