Esse negro corcél cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me apparece
Da noite nas fantasticas estradas,

Donde vem elle? Que regiões sagradas
E terriveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavalleiro de expressão potente,
Formidavel, mas placido no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a féra extranha sem temor.
E o corcél negro diz: «Eu sou a Morte!»
Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!»

Á VIRGEM SANTISSIMA

(Cheia de Graça, Mãe de Misericordia)

Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizivel anciedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da belleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as ha na natureza…

Um mistico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!