Estava ainda o sobrinho do banqueiro narrando, com toda a miudeza, como matára os quatro coelhos, quando entrou no escriptorio o tio Lobo, que ia levar a D. Lucas os dois arrateis de polvora de contrabando, que este lhe encommendára.

—Esta ahi o snr. D. Lucas? perguntou o caçador aos caixeiros.

—Sim, senhor, respondeu Angelo.

—Pois faça favor de lhe dizer que está aqui fóra o tio Lobo, que o procura.

O pequeno entrou no gabinete.

D. Lucas, que ainda não tinha acabado de contar como matára os quatro coelhos, ficou logo furioso por lhe interromperem a historia, e antes que o pequeno tivesse tido tempo de fallar, perguntou-lhe, com aquella amabilidade que lhe era propria:

—Que queres tu d'aqui, borrego?

—É que está ali fora o Lobo, respondeu Angelo.

Desataram todos a rir, vendo a relação casual, que havia entre a pergunta e a resposta.

Não era para admirar que Angelo omitisse a denominação de tio, que costumava preceder o nome do caçador, porque esse tratamento, que é tão vulgar em quasi toda a Hespanha, não se usava nem se usa, na sua provincia, senão quando o justificam os laços de consanguinidade. Julgando por tanto que se riam por não se haver explicado bem, ficou corrido de vergonha, e tratou de se fazer comprehender melhor.