—Parece-me que é assim que tenho ouvido chamar-lhe; e accrescentou, «é aquelle caçador a quem o senhor comprou domingo os quatro coelhos junto á porta de Toledo.»
Estas palavras de Angelo foram acolhidas com uma gargalhada ainda mais ruidosa do que a anterior, porém menos inoffensiva; uma gargalhada de mofa, insultante, sangrenta, e isto porque os caçadores têm dois grandes defeitos; são geralmente embusteiros e invejosos, e assim como não perdem a occasião de mentir, tambem não perdem nunca o ensejo de humilhar os que caçam, ou suppõem caçar mais do que elles.
D. Lucas ficou por espaço d'um segundo immovel, envergonhado e corrido; porém, de repente, injectaram-se-lhe os olhos de sangue, engorgitaram-se-lhe as veias, e tornou-se completamente livido e desfigurado.
Arremeçou-se como um tigre sobre a pobre creança, vociferando e praguejando como possesso, e lançando-lhe as mãos ao pescoço, levou-a d'encontro á parede e começou a descarregar-lhe furiosas patadas no estomago, antes que D. João e as outras pessoas, que se achavam presentes, tivessem tido tempo para se interpor entre aquella fera e o innocente cordeiro, que, por unica defesa, invocava o nome de sua mãe.
Oh! tu, Fernan Caballero, nobre e generoso cantor do nosso bom povo hespanhol, amigo dos pobres d'espirito e dos ricos de coração, que tens cabeça d'homem para pensar e alma de mulher para sentir; tu que és o amigo por excellencia dos meninos e das mães, dos fracos e dos attribulados; tu que buscas e encontras as dôres e as afflicções do proximo, onde as almas vulgares as não descobrem, e que, com tanto sentimento e caridade, as prantêas, dize-me, meu bom Fernando, não achas que os sabios legisladores da humanidade tem sido extremamente crueis e ignorantes, pondo os meninos debaixo da salvaguarda do codigo, que protege os homens, em vez de os acobertar com a égide celeste do codigo que protege os anjos?!
[ XI]
Alguns mezes haviam já decorrido depois do dia em que Angelo escapou, por milagre, de morrer ás mãos de D. Lucas.
Era por uma aprazivel manhã de primavera. A sala de jantar de D. João Quijano tinha uma janella, que olhava para o norte. Em quanto o banqueiro e sua mulher tomavam chocolate na sala, Angelo fôra para a varanda, e ali se conservava, com a vista immovel e fixa na direcção do seu paiz.
O pobre pequeno estava mais alto do que quando chegára das montanhas de Biscaya, porém tinha emagrecido consideravelmente. Cobria-lhe o rosto uma pallidez mortal, e nos seus bellos olhos, tão meigos e sympathicos, retratava-se-lhe a profundissima tristeza que lhe ia n'alma.
—O que fazes tu ahi, Angelo? perguntou carinhosamente D. Joanna.