O menino não respondeu.
—Oh! meu Deus! O que terá esta creança?! accrescentou a mulher do banqueiro, com verdadeira afflicção.
—Não sei o que elle tem, Joanna, mas ninguem me tira da cabeça que está doente desde que Lucas lhe bateu, apesar do medico dizer, passados quinze dias, que o considerava completamente restabelecido.
—Queira Deus que Lucas lhe não tornasse a pôr a mão.
—Não, filha; por isso fico eu. Mas vejo-o tão abatido e melancholico, que receio muito pela sua existencia.
—Ai! Nossa Senhora permitta que te enganes. Angelo se chama e foi elle na verdade um anjo que trouxe a paz e a harmonia á nossa casa; porque, desde que para aqui veiu esse menino, nós que sempre andavamos de rixa, estamos inteiramente mudados, e tenho fé em que elle ha de acabar por abrandar e adoçar por uma vez este meu maldito genio.
—Assim é, Joanninha, exclamou o banqueiro commovido; sempre esperei que quando tivesses um filho, se operaria em ti uma grande mudança. Não quiz Deus conceder-nos essa ventura, mas enviou-te em compensação essa criança, a quem queres hoje quasi tanto como se fôras sua mãe.
—Quem sabe se o que tem o pequeno é um desejo ardente de voltar para a sua aldeia... suspirava tanto por isso, a principio...
—Tambem me não parece que seja essa a causa do seu soffrimento. Desde que os paes lhe disseram n'uma carta, que era elle o unico amparo com que contavam para a velhice, e que, se voltasse para a terra, nada poderia fazer em beneficio d'elles, não cessa de dizer que está satisfeito em Madrid, e até quando alguma vez se encontra de bom humor, costuma repetir o proverbio «de Madrid só para o céo».
—Pois é preciso mandar chamar o medico, porque se não cuidarmos d'elle váe cada dia a peior. Angelo, accrescentou D. Joanna, chamando novamente pelo menino.