—Vamos, tio Paciencia, dizia elle, é preciso que não desmintas, n'esta occasião, o appellido que te puzeram, porque, se consegues catechisar o porteiro, cólas-te lá dentro, e depois é que já ninguem te dá volta. O velhote é exquisito de genio, caturra e curioso como todos os porteiros... Mas tambem, deve a gente lembrar-se de que o pobre do homem é tão velho, que já não póde com os calções, e devemos ser indulgentes para com os velhos como para com as creanças, porque os extremos tocam-se. Demais, a paciencia é uma virtude, que o proprio Jesus recommendava ao apostolo S. Pedro, como se vê da seguinte cantiga:
Era S. Pedro na calva
perseguido do mosquito,
e o Mestre lhe dizia:
—Tem paciencia, Periquito!
Ao terminar estas reflexões, avistou o tio Paciencia as portas do ceu, e estremeceu d'alegria, lembrando-se de que estava já a meio kilometro de distancia do mundo onde todos os homens eram eguaes.
Chegou finalmente á portaria, e viu que não havia lá viva alma, o que devéras lhe agradou, porque assim não se expunha a morrer arrebentado, como quando ia trocar notas ao banco d'Hespanha.
Deu uma aldrabada pequena na porta, e um velho, que não tinha um pello na cabeça, abriu o postigo e perguntou-lhe:
—O que quer você d'aqui?
—Ora, o Senhor lhe dê muito boas noites, lhe tornou o tio Paciencia, com a maior humildade, tirando o chapeu. Como passou? Passou bem?
—Muito bem, muito obrigado. Mas o que queria o senhor?
—E a senhora e os meninos estão de saúde?
—Homem, despache d'aí, diga o que quer.