Adeus, adeus, Mocidade!
Já chega o inverno do Mal!…
Vae despir-te a Tempestade
Nevado lyrio real!

Chegou a noite fechada!
Adeus tardes das janellas!
—Pintai-me agora no Nada
Sobre as tristes aquarellas!

*AQUELLA ORGIA*

Nós eramos uns dez ou onze convidados,
—Todos buscando o gozo e achando o abatimento,
E todos afinal vencidos e quebrados
No combate da Vida inutil e incruento.

Tocava o termo a ceia—e ia surgindo o alvor
Da madrugada vaga, etherea e crystallina,
A alguns trazendo a vida, e enchendo outros de horor,
Branca como uma flor de prata florentina.

Todos riam sem causa.—A estolida batalha
Da Materia e da Luz travara-se afinal,
E eram já côr de vinho os risos e a toalha,
—E arrojavam-se ao ar os copos de crystal.

Crusavam-se no ar ditos como facadas;
Escandalos de amor, historias sensuaes…
—Rolavam nos divans caindo, ás gargalhadas,
Sujos como truões, torpes como animaes.

Um agitando o ar com risos desmanchados,
Recitava canções, farças, Hamlet e Ophelia;
—Outro perdido o olhar, e os braços encruzados,
De bruços, n'um divan, roia uma camelia!

Outros fingindo a dôr, fallavam dos ausentes,
Das amantes, dos paes, com gritos d'afflicção,
—Um brandia um punhal, com ditos incoherentes;
—Outro sobre um sophá ladrava como um cão.

Era um delirio atroz de risos pelos ares!
—Ah! mas eu, que só quero a paz dos vegetaes,
Feliz! então feliz! matava os meus pesares
N'aquelle ocio imbecil da pedra e dos metaes!