Eu sou um visionario, um sabio apedrejado,
Passo a vida a fazer e a desfazer chymeras,
Em quanto o mar produz o monstro azulejado
E Deus em cima faz as verdes primaveras.
Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
E erro como estrangeiro ou homem d'outras eras,
Talvez por um contacto ironico lavrado
Que fiz e já não sei talvez, n'outras espheras.
A espada da Theoria, o austero Pensamento,
Não matou ainda em mim o antigo sentimento,
Embriagam-me o Sol e os canticos do dia…
E obedecendo ainda a meus velhos amores,
Procuro em toda a parte a musica das côres,
—E nas tintas da flôr achei a Melodia!
II
J'ai vu les Espréces et les Formes,
j'ai vu l'Esprit des Choses.
(Balzac Seraphita)
Bem sei que a planta engana e a Natureza mente,
E que a flexa do Sol nos pode assassinar,
Que a Peste torna o azul sereno e resplendente,
E que a pérola sae das infecções do Mar!
Tudo é Materia e Força e lei omnipotente!
E em quanto o lyrio incensa e azula-se o luar,
Impassivel talvez, em baixo, surdamente,
A terra cria a flôr que me hade envenenar.
Bem sei! mas, na floresta immensa das Theorias,
Eu amo divagar ouvindo as melodias
Que as plantas musicaes dão aos astros e aos Ceus.
Ah! eu vejo Jesus no coração das rosas!
Só eu, ouço as leaes flores melodiosas!
E o lyrio é para mim a hostia onde está Deus!