III
O vermelho deve ser como o som d'uma trombeta….
(Um cego)
Allucina-me a Côr! A Rosa é como a Lyra,
A Lyra pelo tempo ha muito engrinaldada,
E é já velha a união, a nupcia sagrada,
Entre a côr que nos prende e a nota que suspira.
Se a terra, ás vezes, brota a flôr que não inspira,
A trivial camelia, a branca enfastiada,
Muitas vezes no ar perpassa a nota alada
Como a perdida côr d'alguma flor que expira!
Ha plantas ideaes d'um cantico divino
Irmãas do oboé, gemeas do violino;
Ha gemidos no azul, gritos no carmezim!
A magnolia é uma harpa etherea e perfumada!…
E o cacto a larga flor, vermelha e ensanguentada,
Tem notas marciaes, sôa como um clarim!
IV
Mas aquella que adoro, a hieratica duqueza,
Nobre como as reaes senhoras de Brabante,
Como a hei de pintar egual e semelhante,
Se não ha Som nem Côr em toda a Natureza!
Seu collo tem do lyrio a rigida firmeza,
Seu amor é um ceu catholico e distante;
Mas a luz do olhar sonoro e radiante
Eleva como a Côr, sôa como a Belleza!
Nunca lhe ousei fallar, nem sei, se amor lhe inspiro;
Mas quando emfim morrer, então como um suspiro
Meu seio florirá, em vez do meu amor…