Nunca o olhar fitava em sitio certo;—
Vogava ás vezes só no tombadilho,
Com um comprido e merencorio filho,
E ninguem viu-lhe um riso franco e aberto.
Punha, ás vezes, no mar o olhar sombrio;
E ao vento, a fita branca do chapeu
Dir-se-hia a vella triste d'um navio
De naufragos, n'um lugubre escarceu!
—Mas comtudo, a ingleza, a triste amante
Com seus longos e louros caracoes,
Fitava ás vezes no azul distante,
Seus olhos divinaes como dous soes.
E, mau grado andar languida, doente,
Ser branca, loura, e fragil como um vime…
—Um sabio lêra-lhe a attracção ardente
Pelas virís fascinações do crime.
*NOUTES DE CHUVA*
Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças!
Se tu amas no Outomno—já sem rosas!—
A longa e lenta chuva nas vidraças,
E as noutes glaciaes e pluviosas!
N'essas noutes sem luz, que—visionarios—
Temos chymeras misticas, celestes,
E scismamos nos pobres solitarios
Que tiritam debaixo dos cyprestes!
Que evocamos os liricos passados,
As chymeras, e as horas infelizes,
Os velhos casos tristes olvidados,—
E os mortos corações sob as raizes!
N'essas noutes, meu bem! em que desfeito
Cae o frio granizo nas estradas,
E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,
Ouvir a longa chuva nas calçadas!
N'essas noutes, electricas, nervosas,
Todas cheias d'aromas outonaes,
Que a tristeza tem formas monstruosas
Como n'um sonho os porticos claustraes.