A minha alma não descança;—
Morra o sol, ou surja a aurora,
Só tu me lembras creança
De cabellos côr d'amora!

A tua doce ignorancia
Tão cheia de singelesas
Faz todas as almas presas
Como as perguntas da infancia!

Tu és como um pomo d'ouro,
E o vivo sol que me alegras;
—Amo mais teu rir sonoro
Do que a voz das toutinegras!…

Quando eu fôr a enterrar,
N'algum dia, ao pôr do Sol,
Quero levar por lençol
Só a luz do teu olhar!

……………………………………

—Mas tu só vives cantando!—
E ao vir da fonte com agoa,
Mais sentes que estou penando,
Mais te ris da minha magoa!

Ah! nunca eu tivesse o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!

*CARTA ÁS ESTRELLAS*

Ninguem soletra mais vossos mysterios
Grandes letras da Noute! sem cessar…
Ó tecidos de luz! rios ethereos,
Olhos azues que amolleceis o Mar!…

O que fazeis dispersas pelo ar?!…
E ha que tempos ha já, fogos siderios,
Que ides assim como uns brandões funereos
Que levaes o Deus Padre a sepultar?!