Os campos dão renovos
Tambem, n'outras espheras?
—Quem faz as primaveras?
—Quem faz os astros novos?

Quem faz a ave-flor?
Quem tinge o temporal?
—Quem faz a pomba, côr
Do lyrio virginal?

No Sol ha violetas,
E rios, campos, vinhas?
—Dize, se nos planetas?…
Tambem ha andorinhas…

E tu que mais almejas?
Tens sol, astros e ninhos—
Tens tudo o que desejas…
—Luz, grãos, pelos caminhos!

Ó triste ambicionar!
Ó santo e vão delirio!
—Talvez, ó filha do Ar
Quizesses ser um lyrio!

*ENTRE OS ARVOREDOS*

Calma silentia lunae.
(Virgilio)

Recordas-te essa noute, ó bella desgostosa!
Que nós andámos sós e tristes divagando,
Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando.
Aos lividos clarões da lua silenciosa?!…

Callados e atravez da grande sombra escura
Dos cerrados pinhaes e augustos castanheiros,
Como as almas leaes e antigos companheiros,
Unidos a gemer a mesma desventura!

E eu sentia-te, ó grande e triste Abandonada!
Em meu seio verter as tuas fundas maguas,
Ao rythmo trivial e nitido das aguas,
E á alva e fina luz da hostia levantada!