No ar calado e bom da camara fechada,
Como um ninho d'amor, casto e silencioso,
Um grande cravo branco ergue o caule cheiroso,
N'uma jarra de jaspe, antiga e cinzelada.

Voam aromas bons no ar tranquillo e molle;
Algumas flores vão morrer nas jarras finas,
—Elle sereno vê, nas rendas das cortinas,
Silencioso morrer na sua gloria o Sol!

Todas morrem ao pé, só elle altivo é bello,
No seu vaso de jaspe, entre as demais existe,
—Como um rei infeliz n'um ultimo castello,
Com seu ar virginal e com seu modo triste!

Cheio de vida ainda, idyllico, ideal,
Talvez lamente o amor, na sua jarra d'agua!
—Mysteriosa flor!—que caprixosa magoa
O virá a pender na haste virginal?!

Talvez lamente o Sol—a luz vermelha viva?
O sol que vae morrer—o bello agonisante!
Talvez que chore a lua—a lua pensativa!
Que lhe venha lavar a alvura soluçante!

Quem foi a branca mão—olympica, divina,
A mão macia, ideal—traidora—que o colheu?
Que o foi roubar á terra, um dia, e que o prendeu
Na fria solidão d'aquella jarra fina?

E foi roubar ao amor, aos cantos, ás folhagens,
Á bondade da luz—ás noutes meigas bellas,
Exilado do sol, e orphão das paisagens,
O cravo virginal—viuvo das estrellas?!

Mysteriosa flor! a sua extranha magoa
A ninguem o dirá seu calix pensativo,
E a morrer—morrerá, calado, firme, altivo,
E nobre como um rei, na sua jarra d'agua!

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Lá fora morre o sol, como um desgosto humano,
Voam aromas bons no ar quente e calado;
Vae-se esvaindo a luz, e triste, e socegado,
Vê-se um jasmin morrer em cima d'um piano.