Tu não sabes que gloria é ser [pamphletario]!
É ser o vento rijo, o vento extraordinario
que agita as multidões como um canavial,
contra um farrapo regio, a purpura real
contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições.
É ser o que protesta, o que ergue os corações
n'um arranque de heroe, á torre do Direito,
é dar qual pellicano, o sangue do seu peito
á Plebe sua mãe, como elle o dá aos filhos.
É ser o que não és. É não trocar os brilhos
d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio,
pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio.
É ser o que protesta—o que ergue uma lanterna
na grande escuridão, na escuridão moderna,
contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente
a favor do ninguem, da Plebe, do innocente.
É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna,
a espada que degolla e o grito que condemna.
É ser elle sósinho, altivo rebellado,
o grito do mineiro e o espectro do enforcado
que vem correr d'um leito o cortinado régio.
É ter esse condão, o enorme privilegio
d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas,
fazer gritar a espada e levantar as almas!
É ver-se ás vezes só, pobre de terra em terra,
na floresta, no val, nas rochas ou na serra,
á neve, [á chuva], aos soes, nas névoas estrangeiras,
nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras
pela neve polar, no exilio, nas ruinas,
—mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas,
mal soar o seu nome—alevantar-se um peito
e gritar:—Elle é que é a Espada do Direito!
Ser pamphletario é—ser um pharol na noute
ser a pedra angular, Patibulo e Açoute.
É ter todo um vulcão em lava no seu craneo,
toda a Plebe agitar, do seu subterraneo,
como agitou Marat,—ou aguçar a espada
contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada.
É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto,
quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto
ser chamado um hereje—e as pallidas mulheres
quando veem surgir esses extranhos seres
apertarem ao peito as timidas creanças.
É andar pobre, exhausto, humilde como as granças
errante, só, banido, exhausto pela terra,
—mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra,
quer nos paços reaes, nas praças da Cidade
a sua voz gritar—Alas á Honestidade!
E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom,
frio como é a Lei, frio como Proudhon,
chicotear sem dó os lombos dos Heroes,
vender como Marat, na fome, os seus lençoes,
mas nunca se vender, mas nunca transigir!
É saber odiar, decapitar, punir
e não se rebaixar nunca como um capaxo!
É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo,
que aterra a noute vil d'um seculo maldito.
É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito
n'uma éra de luto, infame, ensanguentada
em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada
e morre como outr'ora amando o Raphael.
E ter odio, é ter ira, é ter despreso e fel
contra uma horda vil de infames sacripantas.
É levantar ao ceu livres espadas santas
todos os campeões das Alas do Rancor.
É gritar, é gritar—«Eu sou o Odio—Amor,
«O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome,
«a voz d'aquelle infeliz, a quem não dão um nome
«que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta
«sem bençãos e orações—como uma prostituta.
«Sou a voz do ninguem, a voz do cannavial
«que soluça, e não quebra ao rijo temporal,
«sou a voz do que chora, a voz do que suspira,
«o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira,
«o que chamou a si os tristes, exilados
«sob as tendas de Cham, todos os desgraçados
«que vagueiam na terra exhaustos e banidos,
«o que chamou a si todos os opprimidos
«todos que tinham sêde assim como Ismael
«e tragavam na treva a sua cinsa e fel!
«Eu não sou como vós uma bexiga cheia
«de colera, de fel, de inveja que guerreia,
«e vem lançar á rua a sua roupa suja!
«Eu não sou como vós um corvo, uma coruja
«que me nutra a cevar nos que se vão ao nada!
«Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada,
«tudo que é fraco, chão, vergado de trabalho,
«tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho,
«tudo que andam vendendo ha muito com as rezes,
«que vivem na abjecção e são chamados fezes
«que chamam povileu, que chamam a gentalha,
«e gritei-lhes—Ávante! É hora da batalha!
Ora este hereje pois, ora este pamphletario,
que assim sabe escarrar no biltre e no sicario,
este homem do Dever, este homem do Direito,
que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito,
que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza
dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza,
que em quanto tudo quer ser despota e opulento
elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento,
que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos,
quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos,
que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte,
elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte,
quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada,
faz do Direito açoute, e faz da penna espada,
e diz a um rei, um Czar, um déspota potente
—Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente
o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios,
o furacão da Plebe, o açoute dos imperios,
terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis.
—Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!...
Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna:
—Vós tendes o knut—eu tenho esta lanterna.
Este homem inda que pobre, inda que perseguido,
roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido,
inda que triste e só no seu isolamento,
ao pé do grande Czar, n'este cruel momento,
inda que pobre e vil, inda que maltrapilho
é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.
Assim foste tambem, ó Velho solitario!
Assim foste tambem grande pamphletario
que soubeste elevar a eterna Alma do Povo!
Assim foste tambem quando eras puro e novo
e sabias levar á guerra os corações,
quando eras um açoute e o deus das multidões
que vinham em tropel beijar os teus joelhos!
Mas hoje tu o que és—escoria d'entre os velhos
refugo de traidor, ó renegado hostil!
Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil!
alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...
És o que se vendeu!—Tu és uma cloaca.
III
Ó seculo de ferro! ó geração escrava!
que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho,
no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava,
cae a agua do ceu como n'um poço velho!
Sim a agua do ceu que faz viver a flôr
mal que no poço cae transforma-se na lama!
Ó seculo de ferro, ó seculo de horror,
que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama?
Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos,
prégando a Negação, n'um funebre arrepio,
que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos
como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio?
Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos
que dão prantos de sangue ás tuas vexações,
e do carro de fogo arrojam os seus mantos
que arrastam á Revolta o mar das multidões?
Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira
vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar.
A Justiça tornou-se em velha alcoviteira.
A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar!
O Desespero crú esparge o seu veneno
na taça d'ouro e onyx das jovens illusões.
O Odio faz ouvir o seu terrivel threno.
O Mal com a tenaz aperta os corações!
A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes
ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro.
Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes.
Seu santo coração flameja como um astro!
Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto
sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte!
Só ella faz ouvir seu alaúde em luto
que dá notas crueis de Maldição e Morte.
É só ella que empunha o seu chicote em fogo
como o açoute de ferro indomito de Deus,
para açoutar os reis, o falso demagogo,
os biltres charlatães dos reis e dos plebeus.
É só ella que faz na noute secular,
na sua Lyra ouvir—não canticos d'amor—
mas as notas fataes que entornam o luar
da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor.
Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras,
que já tendes chorado e que sabeis rugir.
Quero em cordas de bronze os canticos das iras!
É preciso açoutar, decapitar, punir!...
Deixae agora o Amor e as brizas da bonança!
Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio!
Pela noute vibrae as notas da Vingança.
Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.
Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios,
os atalhos do bosque e a [lua da floresta]!
Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios,
n'uma éra de sangue inhospita e funesta!
Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano,
as nuvens da montanha e os sinceiraes do val!
porque o mundo talvez espera o seu Tyranno.
A Terra vae parir algum Christo do mal.
Deixae de nos cantar as nuvens da bonança,
e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir,
por que em breve já vem a hora da matança
em que a Espada tem voz, e as torres vão cair.
Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos,
ó nuvens da manhã, ó flor da romanzeira,
ó torrentes do val, ó beijos amorosos
da Mulher que se amou n'uma visão primeira!
Tambem já te cantei, estrella do pastor,
ó danças sobre a eira, ó lua das marés.
Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr,
terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez.
Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito.
Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro.
Foragido dos reis, armado do Direito
faço vibrar na Lyra os canticos de ferro.
IV
Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta
tendo batido em vão foste á do lupanar,
e ali deixaste a honra e a virgindade morta,
como noiva infeliz que levam a enterrar!
quando foste bater, chagado coração
ás portas soluçando, e que ninguem te abriu,
e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão
te sepultou em vida, e teu calor cingiu!
quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,
illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel,
viste tudo findar na enxerga repellente
do teu leito de infamia—o catre do bordel!
Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços,
como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,
só achaste o silencio e o echo dos teus passos,
o riso da cazerna e a noute das rameiras!
quando ó loura mulher no berço excommungada
por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,
por tua propria Mãe talvez abandonada,
pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz!
Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras,
e a despir e a manchar as brancas vestes tuas,
e a deixar teu amor na lama das regueiras,
como os sedentos cães que vão beber nas ruas!
Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura,
que uma mãe não beijou, que um Pae não protegeu,
achaste a Fome vil, velha de boca escura,
n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!
quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros,
pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue,
tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros,
sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue!
quando ó selvagem flor, ó poça do abandono,
sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão,
a Fome te obrigou qual magro cão sem dono
a buscar na valleta o teu immundo pão!
Dize sabias já, rainha da enxurrada,
ave que não tens ninho e que empurrou a Fome
que ha entes como tu—raça vil, condemnada,
que vendem seu pudor, que vendem o seu nome?
Dize sabias já, loura infeliz sem pão
que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu,
que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão,
sem terem como tu os chascos e o labeu?
Dize sabias já que em quanto vaes na praça
entre um circulo vil de chascos quaes facadas,
elles vão affrontando a multidão que passa,
em gloriosos trens de portas brasonadas?
Dize sabias já, ó branca meretriz,
que aos homens como cães cedes teu corpo nú,
que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz,
mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu?
Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada,
por toda a rua hostil, por toda a rua séria,
a distancia que vae dos outros ao teu nada.
Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria!
Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas,
entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes,
ó prostitutas vis! [cadellas açoutadas]!
Ó rameiras da rua!—eu vos respeito mais.
V
Velho, escuta, esta voz.—Eu não sei perdoar:
frio como um Destino eu heide-te açoutar
até te ver em sangue os lombos aviltados!
No estrume arrastarei teus louros profanados,
que jazerão no esterco infame das viellas,
onde vagam á lua os ébrios e as cadellas.
Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado
que depois de haver rido, haver calumniado
uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha,
—no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!—
n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta,
depois de lhe chamar a grande prostituta
nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo
que ser do filho-rei o humillimo capaxo,
nada achou mais servil, para apagar a offensa,
do que vender a penna e perseguir a Imprensa!
Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão,
ó abysmo d'uma alma, ó rei da Creação,
foi Satan que te pôz o diadema escuro!
Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro,
macular para sempre a virginal gloria,
cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia,
e envergonhar a campa humilde dos plebeus
que foram os seus paes—e a pobre mãe nos ceus,
matar os louros seus—aviltação eterna!
como um ebrio que morre em chão d'uma taberna?
És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma etherea?
Acaso és tão medonha ó funebre Miseria,
acaso és tão infame, ó magra Messalina,
que obrigas uma alma, essa porção divina,
essa faisca eterna, eterna claridade,
a assassinar sem dó a branca virgindade
do seu passado santo e virgem coração,
e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão?
Acaso ó ouro és tu—tu que nos fazes nobre?
É tão terrível ser—puro, plebeu, e pobre,—
é tão torpe, é tão vil, ser simples mas honrado,
que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado,
que em certo dia vil—dia vil entre os dias,—
se atire uma risada ás santas utopias
ás crenças virginaes da loura Mocidade
á aureola ideal d'aquella santa edade,
e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio,
pela libré d'um servo e a farda de um lacaio?
Não! Não tem remissão este teu crime, ó Velho!
Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho,
o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso!
Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo,
faminto como tu, irá lamber o manto
do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto,
e de rastos, no chão, beijar o pó do throno.
Por isso vou marcar-te infame cão sem dono,
e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira.
Vaes ouvir a Justiça—a augusta, a verdadeira,
a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte,
a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á morte,
com seu dedo de luz no livro do Futuro,
a que arroja á gehenna eterna do monturo,
e que com ferro em braza escreve os tristes fins
dos juizes Caiphás, dos pifios Severins,
e d'outros a quem heide em breve tomar contas!
Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas,
a que gela no labio as phrases começadas,
que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas,
pelas suas crueis, fataes carnificinas,
a que condemna os reis e as tropas assassinas,
a que forma e dirige a Alma Universal.
Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal.
A Plebe (levantando os braços, clamando)
Eis aqui, ó Justiça, ó minha Mãe austera,
tua filha infeliz, que traz preza esta fera,
este sinistro Reu que vês acorrentado!
Elle, o vil me trahiu, elle é o scelerado
que de mim motejou, como Cham riu do Pai!
Elle era o meu bordão, qualquer soluço ou ai
que abalasse o meu peito, o peito d'esta escrava,
vinha bater no seu. O monstro não ladrava
como hoje ladra hostil aos meus cabellos brancos!
Eil o! elle aqui está!—o rei dos saltimbancos!
A Justiça