Cala um pouco essa dôr. A Plebe grande e rude
deve ser tambem forte assim como a Virtude.
Nem sempre á pena e á dôr o pranto fica bem!

A Plebe

Deixae me soluçar. Eu sou a sua Mãe.

A Justiça (surpreza)

Elle é teu filho, ó Plebe?... Oh deve ser suprema
a injuria que te fez, ou o crime que o algema!
De certo foi bem funda extraordinaria a offensa
bem terrivel, cruel, ensanguentada, intensa,
bem fundo e horrendo o golpe, infame, excepcional
pois que cita uma Mãe seu filho ao tribunal!

A Plebe

Bem grande sim que foi! Escuta a minha pena.
Ouve primeiro, ó Mãe! Depois julga e condemna.
Eu sou ha muito a eterna, a grande foragida
que vou de val em val, de mar em mar, varrida
como a Judea antiga, a escrava, pela noute,
chorando por seu Deus, sob o romano açoute.
Meus filhos tambem vão chorando pela estrada.
«Ás vezes diz-me um—Ó minha Mãe amada!
«Já temos caminhado em vão de serra em serra.
«Temos os pés em sangue! Á guerra, ó Mãe, á guerra!
«Não temos vinho e pão! Não temos o sustento!
«Negam-te em toda a parte o abrigo e o acolhimento!
«Não temos luz e lar. Não temos nem vestidos!
«Não temos ar nem sol! Vem aos montes subidos
«olhar como o sol brilha em rútila grandeza!
«Deus tambem para nós formou a Natureza.
«Não é só para um rei, um grande, uma rainha
«que a espiga dá seu pão e pampanos a vinha!
«Eu já sou forte, ó Mãe, eu tenho as mãos grosseiras
«de pegar n'uma enxada e de malhar nas eiras,
«eu quero transformar a minha enxada em lança,
«e tornar teu naufragio, ó Mãe, n'uma bonança!
Ás vezes este filho energico, revel,
é um trigueiro aldeão, chama-se Guilherme Tell,
outras com seu olhar veste os simples e os nus
é plebeu e poeta e chama-se Jesus.
Outras é um açoute, um vento rijo e austero,
é um monge brutal e chama-se Luthero.
Mas ás vezes tambem, ó lastima vehemente!
falla-me assim, ó Mãe, a bocca da serpente
d'um filho que eu creei aos peitos vigorosos,
com o sangue de heroes de louros victoriosos!
Falla-me em nome, sim, da Colera e da Ira
a bocca da Traição, a bocca da Mentira,
apontando-me além teu sceptro de brilhantes.
Eu levanto-me então assim como os gigantes,
a espada dos heroes empunho sem demora,
e cançada d'andar qual velho boi na nora
da Miseria, da Dor, da Fome, da Abjecção,
prégo a santa Revolta á santa Multidão!
Mas então o servil, o immundo renegado,
vende-se a quem me tem o peito ensanguentado
no lodo da abjecção, no pó do aviltamento!
Fico então outra vez no meu isolamento,
na minha escuridão chorosa, amarga, e séria,
outra vez a puxar na nora da Miseria,
outra vez a roer o pão amargo e escuro,
pela fresta espreitando o dia do Futuro.
Foi assim que este fez, o indigno sacripanta.
Foi assim que cuspiu na minha fronte santa.
Foi assim que escarrou nos meus cabellos brancos.
Foi assim que o villão, chefe dos saltimbancos,
expulsou sua Mãe ao vento da Desgraça.
Foi assim que vendeu a sua Mãe na praça
expulsando-a de casa, em desabrida noute
sob a chuva do ceu, sob a ironia, e o açoute.
Tudo isto o ingrato fez pela servil Cobiça.
Justiça contra o vil!—Justiça, ó Mãe, Justiça!

A Justiça

Miseria, infamia, e dôr! Ó mundanal feitura,
barro do homem vil, indigna creatura
póde-se acaso assim cuspir em sua Mãe!
Póde acaso a Cobiça allucinar alguem
por um pouco de Luxo, um pouco de poeira,
que transforme uma alma ingenua, verdadeira,
um virgem coração, qual pagem branco e louro
que sonha no Ideal em finas torres d'ouro,
a abandonar assim as illusões de gloria,
sua auréola santa, o seu brazão na Historia,
todo o seu Verbo em fogo, assombro da Cidade,
todas as convicções da loura Mocidade,
para atirar tudo isto aos pés da sombra apenas
d'um symbolo real eivado de gangrenas,
e depois sem Amor, sem nada que conforta,
a sua velha Mãe lançar fóra da porta!
Alguem acaso viu o crime infame, enorme?

A Consciencia Humana