Alguem viu, alguem viu! Alguem que nunca dorme,
alguem que sonda o mar e os fundos corações
as insomnias dos reis e os somnos dos leões!
Eu o vi, eu o vi, o grande scelerado
toda a noute escrever, d'olhar allucinado,
pamphletos crueis na sordida trapeira.
Eu o ouvi, eu o ouvi chamar uma rameira
e rainha assassina á tragica reinante.
Eu o vi, d'olho acceso, indomito, espumante,
prégar a sedição, direitos, regalias,
e erguer a Plebe-Mãe ás santas utopias
que fazem levantar na praça os estandartes!
Eu o vi, eu o vi, queimar os baluartes
do Respeito Real, e as ultimas trincheiras,
agachado na treva assim como as toupeiras,
a minar, a minar, as monarchias vãas!
Depois tambem o vi sobre os reaes divans,
reclinando-se já com um praser secreto,
contemplando os florões dourados pelo tecto,
com um olhar d'abbade ou satyro contente,
exclamar: «Isto é bom!... Sente-se bem a gente
«n'estes almofadins, entre estes reposteiros!
«Gósto d'estes florões, gósto d'estes archeiros,
«que fazem reluzir as suas alabardas!
«Afinal os plebeus precisam—é d'albardas.
«Que querem elles mais? Comer das ucharias,
«beber como uns toneis, vir ás estrebarias,
«e algum dia puxar pelas reaes carroças?...
«Eu nunca fui plebeu! Eu sempre tive as bóssas
«do mando, do poder, do luxo, da opulencia!
«Gósto de ouvir dizer—Saiba Vossa Excellencia
«que o espera á mesa já El-Rei, Nosso Senhor!
«Eu levanto-me então. Como e bebo melhor
«que todo um refeitorio inteiro de bernardos.
«Não sou como os plebeus que até devoram cardos,
«negro caldo espartano e sordidas raizes!
«Como melhor que os reis, mais que as imperatrizes!
«Amo o Porto, o Xerez, e os tépidos manjares
«da ucharia dos reis que incensam bem os ares,
«e dilatam-me o ventre ainda mais que a Gloria!
A Gloria é nome vão! Um fumo só na Historia!
«Da gloria não se vive. A Gloria é só chimera.
«El-Rei Ventre é que manda. O ventre não espera.
«Por isso eu tenho um ventre assim como um abbade!
«Eu amo a flor da Carne e a loura mocidade,
«as faces de setim das bellas camareiras!
«Eu amo estes divans, eu amo estas roseiras
«entre plantas ideaes, extranhas, fabulosas,
«que me fazem sonhar noutes voluptuosas
«como um luar d'amor entre jasmins do Cabo.
«Ah! como ha de ser bom morrer como um nababo,
«apertando entre as mãos as fórmas femininas,
«rosadas, juvenis, pallidas, alabastrinas,
«d'uma mulher ideal que nos concede tudo,
«semi núa, a sorrir, n'um leito de velludo!...»
Eu o ouvi, eu o ouvi, fria Justiça austera!—
Aqui tens, ante ti, a encanecida fera,
que tanta vez ladrou contra os brasões reaes!
Aqui tens, ó Justiça, a escoria dos seus Paes,
a bocca da Traição, a bocca da Mentira,
a penna tinta em fel que semeou a Ira,
o Despreso, a Revolta, a Colera, o Desdem!
Aqui tens quem cuspiu na Plebe sua Mãe.

A Justiça

Ha alguem que defenda o livido accusado?
Ha alguem que erga um braço, um braço immaculado,
que não se tenha nunca achado em morticinios,
um braço recto e bom, puro dos assassinios,
derramados no chão dos campos inda quentes,
que não tenha contra elle a voz dos innocentes,
nem erga contra si a voz dos opprimidos,
ha alguem que erga um braço ao ceu dos perseguidos,
cheio de convicção ao meu terrivel ceu?
Ha alguem que erga um braço, um braço a pró do Reu?

A Ordem (erguendo o braço)

Suspende-te, ó Justiça! Eu ergo a ti meu braço!
Este reu que aqui vês não é um vil devasso,
um baixo salteador d'estradas e caminhos!
Eu vou provar que elle é mais puro que os arminhos.
Vou demonstrar que elle é mais santo que as estrellas,
mais alvo e virginal que as onze mil donzellas!
Provarei, ó Justiça, até á saciedade,
que este reu até tem cheiro de santidade!
A Plebe sua mãe é uma velha escrava,
tonta, hereje, demente, em cujo sangue ha lava
«de guerra e sedição contra as instituições!
«Ella é que faz que El-Rei não durma em seus colxões
«o somno da Innocencia o somno bom do Justo,
«e que até, grandes ceus! faça o seu chylo a custo!
«Ella é que faz que a Industria erre paralysada,
«que o Commercio não durma e a Ordem transtornada
«mande aos seus generaes, chefes, ou coroneis,
«que toda a tropa fique em armas nos quarteis.
«Ella é que impede e trava a roda Progresso!
«Que dique lhe hei de oppôr?—Brado como um possesso:
«Vinde cá Jonh Bull, Iberia, bons guerreiros,
«fuzilae-me sem dó a horda de desordeiros
«que querem supprimir a gothica realesa!
«Enforcae-me quem cante a indigna Marselhesa,
«e clame mais do que eu as livres crenças suas!
«Encarcerae, prendei quem erga a voz nas ruas,
«ou que ande a passear nas praças sem licença!
«Levantae uma forca enorme para a Imprensa.
«Ordenae, decretae, lavrae prisões secretas.
«Guiae-vos por Platão—lançae fóra os poetas
«que são os mais reveis, fataes agitadores.
«Guiae-vos por Platão—Nem sempre cantam flores!
«Tambem sabem cantar as notas de batalha,
fortes como os clarins, rijas como a metralha,
«e quando a Indignação a sua Musa inspira
«não ha bronze que valha o bronze d'essa Lyra!
«No emtanto não pareis!—Nada de transigencias!
«Relaixae, corrompei, comprae as consciencias,
«tudo que se vender como quem vende um trapo!
«Da Lei faze leilão, e da policia um sapo.
«E sobre tudo emfim sem trégoas nem piedade
«ponde a saque e a terror as ruas da cidade
«para prender sem dó a infame biltraria,
«d'essa cafila vil da vã demagogia,
«d'essa corja da Plebe hostil, extraordinaria,
que inda pede mais pão, mais instrucção primaria!
Ora tudo isto fez—eu juro-o pelo Ceu!
para salvar a patria este sublime Reu.
Tambem, Justiça, ouvi n'este immortal litigio
que n'outro tempo o Reu poz o barrete phrigio.
Oh doudas illusões da douda Mocidade!
Quem póde erguer seu braço, o braço sem piedade,
contra o triste Ancião cheio de desenganos
que amou, cantou, gemeu na lyra dos vinte annos!
Quem póde erguer a voz, ferrea como os destinos,
contra quem soluçou ouvindo os Girondinos,
e a sua alma librou nos cantos dos Prophetas
n'esses cantos de bronzes!—As almas dos Poetas
fazem desabrochar os batalhões da terra!
Na primavera em flor os peitos pedem guerra,
aventuras, amor, cabeças de tyrannos!
Mas depois vem a Fome! ah! vem os desenganos,
Miseria, Frio, a Dôr, o tragico Abandono,
vem a Insidia, a Calumnia, as tentações do Throno,
vem os dias sem sol, sorrisos, crenças, flores,
vem os filhos sem pão, vão-se indo os desertores
deixando em torno a nós o vacuo e o isolamento!
—Então ao craneo diz a aguia do Pensamento:
«Por quem foi que eu luctei? Por quem fui eu um forte,
«e o peito despi nú aos turbilhões da Sorte?
«Por quem quebrei, venci, queimei os baluartes,
desdobrando na praça, á Plebe, os estandartes
«comendo o negro pão nos solos estrangeiros?
«Onde estaes, onde estaes, meus velhos companheiros,
«com os quaes eu clamei no val e na montanha,
«cheio d'ancia, desdem, de ardor, e d'ira extranha,
«prégando o Verbo Novo ás multidões sagradas?
«Por quem fiz eu da penna o exemplo das espadas?
Por quem combati eu, rubro, sanguinolento?
Foi por ti Solidão? Por ti Esquecimento?
Por ti Ingratidão? Por ti frio Abandono?
Então n'aquella noute arida, má, sem somno,
escuta-se uma voz, que vem como a rajada,
no vacuo e solidão da fria agua furtada,
que grita em alta voz—Combateste por mim?
Quem és tu? Quem és tu? Quem é que falla assim?
—Mas fica muda a voz. Cala-se e não responde.
O pensador então vae ver onde se esconde
quem lhe dá um tremor indomito, suspeito,
como nunca sentiu no antro do seu peito.
Quer ver o extranho ser, aquella voz interna.
Mas cheio de terror, á livida lanterna,
n'um tragico arrepio, á luz baça e funérea,
—vê sentada em seu lar a furia da Miseria!

A Justiça

Ó Ordem acabaste?

A Ordem

Eu acabei, Justiça!

A Justiça