Quem é que quer entrar por sua vez na liça,
e á Ordem refutar o que ella diz do Reu?

Os Perseguidos

Somos nós, somos nós, que as nossas mãos ao ceu
erguemos muita vez nos asperos caminhos?
Somos nós que hemos visto o sangue dos espinhos
do abysmo nos caireis, nos tragicos atalhos!
Somos nós, os fieis, os homens dos trabalhos,
levados atravez d'um turbilhão maldito,
como errou Ismael, como o judeu proscripto
queimado pelo sol vermelho das legendas.
Somos nós, somos nós, que errámos sob as tendas
do excommungado Cham na treva e no abandono,
ao destino, aos vaivens, qual folha vil do outomno
que depois de gyrar do furacão á toa
vae rebolar do azul no lodo da lagôa.
Somos nós os fieis que nunca vacillámos,
os bronzeos corações que nunca trepidamos
ante os rostos dos reis e ante as espadas nuas!
Somos nós que ao relento, á chuva, ao gelo, ás luas
das solidões austraes, nos carceres, nas minas,
lavrámos contra os reis, com os punhaes, as sinas
sem quebrar os fataes, terriveis juramentos!
Somos nós que hemos visto a Fome, a Sede, e os ventos
do exilio arrebatar os filhos degredados,
as esposas e as mães violadas dos soldados,
nossos pobres irmãos rasgados sob o açoute!
Somos nós, os fieis, os batalhões da Noute,
que contra o ferreo, hostil Destino triumphante,
temos o Odio-Amor, feito d'um só brilhante.

A Justiça

Agora ergue-te, ó Reu, d'esse sinistro banco!
Alça a fronte ante mim. Faze teu olhar franco.
Responde justo e bem, sem ira, com clareza.
Manda ao teu coração dictar tua defeza!
E se acaso és um Justo, indigno d'essas dôres,
ergue-te, ó Reu! Fulmina os teus accusadores!

O Reu

Eu nunca fui da Plebe! Eu não sou filho d'ella!
Eu não sei o que ladra a rábida cadella
contra mim amostrando os assassinos dentes!
Não sei quem ella é. Não tenho taes parentes.
Não sei por que me cita a ladra ao tribunal.
Eu jamais perturbei a Ordem social.
Eu jamais sublevei as ondas populares!
Nunca, nunca, attaquei a paz santa dos lares,
e a honra ensanguentei d'uma leal Rainha!
Não fui eu que arranquei a espada da bainha.
Não fui eu que açoutei as santas dynastias,
ao chicote infernal dos chascos e ironias,
que sibilam no ar qual feixe de serpentes...
Jamais calumniei...

O Espectro (surgindo, terrivel)

Mentes, ó Velho! Mentes!

Mentes, velho histrião d'um throno gasto e ôco!
Mentes homem venal, mentes despota louco!
Mentes servil plebeu, indigno latrinario!
Tu foste n'outro tempo o irado pamphletario
de pamphletos crueis na sordida trapeira!
Não negues que chamaste, outrora, uma rameira
á mãe do teu Senhor, á mãe de El-Rei teu amo!
Não negues que chamaste um bom veado, um gamo
de silvestre armadura, e flórida ramagem

ao Pae do teu Senhor que tem tua homenagem!
Não negues ante mim que sou o teu Espectro
que apedrejaste o throno e enlameaste o sceptro!
Não negues que eu te vi na fria agua furtada
levantando o Direito, ou revoltando a Espada,
tendo acceso no olhar o sol da Indignação!...
Não negues, ó Caim, que assassinaste o irmão.
Não negues ter as mãos d'aquelle sangue quentes
Não negues que nasceste assim como as serpentes,
e como ellas rasgaste o ventre a tua Mãe!...
Não negues ser plebeu, não negues com desdem
tua origem plebea, a tua Mãe escrava,
nem negues, craneo vão, ter tido a santa lava
do Ideal, da Fé, do Justo, e do Direito!
Eu sou o teu Espectro, á mesa, ou no teu leito!...
Eu sou o que te sondo os mais occultos passos.
Onde quer que tu estás encontras os meus braços!
Onde quer que tu vás—vês o meu duro olhar!
Eu fui teu companheiro. Andei a revoltar,
e a revolver comtigo o lodo das paixões!
Sou o cumplice teu nas velhas sedições,
e ambos temos as mãos de sangue maculadas
de ter á nossa voz feito arrancar espadas,
e gottejar na rua o sangue do plebeu!
Aquelle sangue grita, ah! contra nós, ao ceu!
Aquelle sangue brada e clama contra ti!
Vejo sempre esse sangue, eu vejo-o sempre ali,
jorrando aos borbotões, em grandes cachoeiras,
inundando a calçada e a lama das regueiras!
Vejo o sangue fiel dos filhos da gentalha,
rudes heroes plebeus, levados á batalha,
[pela luz] do teu Verbo, e pela espada nua,
correndo em borbotões nos boqueirões da rua,
despenhando-se ao sol na vasa das valletas!
D'esse sangue plebeu rompem vozes secretas,
cubrindo os ais do mundo, os gritos, os lamentos,
como o carro de Deus e os espiritos dos ventos,
gritando contra nós estranhas ameaças!
E o sangue plebeu diz:—Em quanto [sobre] as praças,
«corria ao rubro só das luctas fratricidas,
«quando a Espada gritava e que ceifava as vidas,
«e abraçados, ao sol, morriam os valentes,
«quando os peitos plebeus e os corações dos crentes
«erguiam para o ceu, para o vermelho espaço,
«juntamente ao seu Odio o vingativo braço,
«mal sabia eu então que tu que me levavas
«á lucta, á guerra, ao ideal das gerações escravas,
«me havias renegar, infame! com desdouro,
«e, ai de mim! ai de ti! trahir-me pelo ouro!
«Maldição sobre ti, que com as impias mãos,
«sujas do sangue quente inda de teus irmãos
«dos guerreiros plebeus, dos corações dos bravos
«que quizeram morrer para não ser escravos,
«que tentando egualar os campeões das lendas
«foram morrer ao sol heroico das contendas,
«ousaste inda pegar na penna então sagrada
«para a entregar ao rei, como vencida espada,
«para escrever servis, ignobeis sacrilegios,
«—e com ellas manchar os reposteiros régios!
«Maldição sobre ti, Velho! que atraiçoaste
«a historia dos teus Paes, e sobre mim galgaste
«para chegar do Throno aos tragicos degraus!
«Has de ouvir minha voz no meio dos saraus,
«no meio das gentis duquezas decotadas
«das camelias da Carne ás luzes desbotadas
«quaes rosas de Saron aos gélidos luares;
«has de ouvir minha voz no meio dos jantares
«no fundo do teu sonho, em meio dos festins,
«entre o tinir do copo, os cantos dos setins,
«nos carros com brazões, de flexiveis mollas,
«entre o [gemer da flauta] e os cantos das viollas!
«Has de ouvir minha voz prenhe de vituperios
«perseguindo-te até da treva nos mysterios,
«chamando contra ti na voz de teus irmãos,
«quando o teu labio abjecto oscule as régias mãos,
«e a mão tinta de sangue ensanguentar a Corôa!
«Eu serei, ó traidor, o cancro que te rôa
«o dente que te morda, o espinho que te fira,
«o escalpello que te abra assim como quem vira
«á luz limpa do Sol uma bexiga cheia,
«a lanceta que te abra a mais secreta veia,
«o pôtro que te dê o mais horrivel trato,
«o ferro em braza, o açoute, o caustico, o nitrato.
«Nunca te deixarei sem trégoa e sem abrigo!...
«Nem nos paços reaes, nem mesmo a sós comtigo
«nem nos uivos da festa, os hymnos do Respeito,
«nem na sombra do sonho e a noute do teu leito
«nem mesmo sobre a terra, inanimado, exangue!
«Ha sangue em tuas mãos—em teus vestidos sangue!
«O sangue é que te lança a sua maldição.