O Reu (caindo no banco, aterrado)
Sempre o Espectro cruel, sempre a eterna visão!
A Justiça
Condemnou-te o teu grito infindo de terror!
Confessaste a Traição!—Trahiste-te traidor!
Eis-te ahi sobre o banco abjecto, confundido!
De nada te valeu ser cynico e atrevido.
De nada te serviu a tua astucia e arte...
Agora erguei-vos, vós, Justos de toda a parte,
sublimes corações que nunca transigistes!
Agora erguei-vos vós Justos, Fortes, e Tristes,
que tendes amassado o vosso pão com pranto!
Agora erguei-vos vós guerreiros do que é santo
mineiros do que é Vil, pedreiros do que é Forte,
ferreiros que forjaes as armas contra a morte,
sobre a bronzea bigorna eterna da Virtude!
Agora erguei-vos, vós, homens do campo rude
que atiraes vossa enxada ao solo da Justiça,
erguei-vos todos vós, fortes que andaes na liça,
cirurgiões do Bem que hervaes vossa lanceta,
pedreiros que aluis o mundo á picareta,
carpinteiros que andaes serrando com a serra,
erguei-vos todos vós, Simples, qne fazeis guerra
a toda esta ruina, esta agonia immensa,
e acercae-vos a mim—ouvi minha sentença:
Já que, ó Velho, trahiste as convicções primeiras,
e enxotaste uma Mãe assim como as rameiras
da qual se esquece o nome ao limiar da porta,
já que atiraste á vala a tua honra morta,
e atraiçoaste a Plebe a que te trouxe ao peito,
de que hão bebido o leite os homens do Direito;
já que excitaste á guerra e á lucta teus irmãos,
e no sangue plebeu tintas ainda as mãos
foste vender-te ao rei a que insultaste a Mãe...
eu lanço-te ao exterminio, á colera, ao desdem
de todo o homem de bem, de todo o homem honrado!
Toma lá a blusa infame do forçado.
Vou-te marcar na testa um grande R gigante,
feito com minha espada em brasa flammejante,
que a todo o mundo inspire—odio, nojo e terror.
Vaes agora gyrar nas espiraes da Dôr,
vaes agora gyrar nas espiraes do Inferno,
que o Dante assignalou com seu buril eterno
na viagem que fez á tragica cidade.
Vaes agora pisar as ruas da Anciedade,
subir a vil calçada amarga do Despreso.
Desde hoje és um forçado, um criminoso, um preso,
que tens com ferro em brasa um R sobre a testa,
cuja vista faz asco e cujo bafo empesta,
—contra o qual, ao passar, todas as mãos honradas
vão arrancar, uivando, as pedras das calçadas!
Como outr'ora Cain com seu signal maldito,
tu vaes errar na Historia, ó vil, de sambenito,
mettendo assombro e horror a quem te vir passar.
O Espectro é teu algoz—o que ha de acompanhar
teus passos junto ao poste, o escuro cadafalso,
curvado, abjecto, vil, a pé, preso, descalço,
cheio de lama, esterco, apupos, irrisões,
entre as vaias da Plebe, escarneos, maldições
de todo um povo hostil que sobre ti escarra.
Ali tendo vestida a sordida samarra,
tendo na testa o infame e caustico signal,
—eu condemno o teu nome á pena capital.
(grava-lhe na fronte um R com a espada)
Primeiro Perseguido (levantando um braço)
Maldito sejas tu—que tens escravisado
aquillo que ha de eterno, augusto, de sagrado,
a Alma, o Verbo, a Penna, a Consciencia Humana!
Maldito sejas tu, que arguiste uma tyranna,
e has sido, contra nós, tyranno inda maior!
Maldito sejas tu, refugo de traidor!
que a nossa execração te siga em toda a parte,
que o Despreso desdobre em ti seu estandarte,
e te acorrente a Dôr qual velho boi na nóra,
que o Remorso te pique e fira como a espora,
e a Vingança te siga os passos pelo escuro!...
Segundo Perseguido
Maldito sejas tu, agora e no Futuro!
Maldito sejas tu nas bagas do teu pranto!
Maldito sejas tu em tudo que fôr santo,
no fundo do teu copo, á sombra até no estio!...
Terceiro Perseguido