VI
O Clero, e as Mulheres
SUMMARIO
Na obra proposta, para todos ha tarefa: a dos escriptores é semear a palavra.—Defensa e apologia do Clero; necessidade e modo de o reformar.—Os Bispos, eleitos pelo Povo, apresentados pelo Governo, confirmados pelo Pontifice.—Um Seminario para cada Bispado, em que se ensinem, com as sciencias moraes e mysticas, os rudimentos das sciencias terrestres mais necessarias.—As Parochias providas pelos respectivos Bispos, e modo como.—Vantagens que d’ahi resultarão.—Justo panegyrico das mulheres.—Reivindicação para ellas do direito de votação.—Bens, que de um tal acto de justiça deveriam advir á sociedade.
Os pensamentos do nosso coração acharam eccos; é porque o santo amor da terra e dos homens não morre nunca. O fogo existia; a nossa voz não fez mais do que assoprar de cima de uma parte d’elle a cinza que o occultava.
¿Com tão felizes auspicios, como poderiamos nós deixar de proseguir? Prosigâmos; não já a sonhar em voz alta, mas em voz alta a meditar, a propôr, a pedir.
Concordes estamos (dir-se-hia que por uma inspiração salvadora, baixada na hora da angustia sobre todos nós ao mesmo tempo) concordes estamos, e convencidos, de que só a associação das nossas forças, tão malbaratadas até agora em mutuamente se espedaçarem, e apesar d’isso ainda tão grandes, tão sufficientes para uma façanha; applicando-se com fé, com ardor, com perseverança, á Agricultura, pode não só aguentar as nossas cidades, que a lanço e lanço se desabam, mas fundal-as novas, dilatar e multiplicar as aldeias, engrinaldadas de vegetação frutifera, transformar a guerra em amor, a mendicidade em trabalho, o roubo, a venalidade, a agiotagem, a alcunhada politica, e a prostituição, essas outras mendicidades, muito mais torpes e odiosas, em honesta e folgada vida, em producção, em virtude, em paz, em contentamento, em gloria, em liberdade, em poderio.
Fomos um grande Portugal; em nossa mão está sermos, e breve, um Portugal ainda maior, mais formoso, mais seguro, mais festejado, mais attractivo para estrangeiros, mais hospedador de suas prendas, de suas artes, de suas sciencias, de sua multiplice civilisação.
Queirâmos; queirâmos de veras. Congreguemo-nos fraternalmente; os dos campos, nos campos; os da cidade, com os olhos n’elles. Lavremos e semeemos todos; uns com o ferro e o grão, outros com o oiro, outros com a doutrina, que tambem é oiro; os legisladores com as Leis; os magistrados com a protecção; e nós, nós os apóstolos descalços, a quem a Providencia recusou terra, oiro, sciencia, e autoridade, mas a quem, em compensação de tudo isso, outorgou alguma alma e muitissimo amor, nós os escritores, semeemos tambem alguma coisa no chão da Patria, a que já está impendente larga benção de regeneração: semeemos a palavra.
Que nenhum de nós se acovarde por desconfiança de sua fraqueza; que nenhum sonegue o que tem por verdade, com medo de que os poderosos lh’o desprezem, os nescios lh’o impugnem, e os malignos lh’o escarneçam. Onde a boa vontade nos houver illudido, valer-nos-ha ella mesma de excusa; e, á falta de approvação, conciliar-nos-ha o tacito affecto dos homens de bem.