Forcejemos por nos conservar como Deus nos fez: corações sinceros e amantes, almas impermeaveis ás invejosas malevolencias, que tão boas coisas estragam por esse mundo.

O systema, que V. S. tem religiosamente seguido na nossa Revista, de exforçar e coroar todas as boas vontades, de animar e dirigir todos os principiantes, de restaurar brios a todos os desanimados, em summa de manter n’essa folha um honrado campo de exercicios, de emulações sem odio, e de premio para todos sem distincção, é quanto a mim o mais glorioso, o mais patriotico, e o mais eminentemente moral, de quantos systemas se podem adoptar em jornalismo. Para almas pequenas teria uma inconveniencia, que é a de semear ingratidões muito feias e ruins. Mas ¿onde estaria o merecimento do bem-fazer, se todos fossem agradecidos?

Como experimentado falo: o melhor travesseiro, onde uma cabeça, que já quer ir branquejando, se pode reclinar para bons somnos, melhores sonhos, e optimas vigilias, é o bem que se fez sem esperança de retribuição, e as amarguras passageiras, que maldosamente nos deram a tragar.

Continue pois V. S. no seu apostolado, baptisando, confirmando, e convertendo, principalmente a pobre gente moça e inexperiente, para a unica verdadeira religião terrestre, a illustração e a moralidade.

O que havia de empregar comigo, já muito conhecedor, e muitissimo desencantado, das vaidades litterarias, dê o exclusivamente á geração nova, que, atravez de tropeços e quedas, vai caminhando para muito grandes destinos. Quanto a mim, presente de já pouco futuro, e passado que a fortuna desfloriu e quebrou antes do fruto, cá me ficarei sentado na pedra immovel do angulo da estrada, seguindo, com os meus votos de muito amor, esse bando juvenil que marcha para o futuro, por entre o qual vai por ventura mais de um que me ama, e muitissimos a quem eu amo.

Dia virá, em que o actual Redactor da Revista, depois de os ter fielmente acompanhado e dirigido, se ha-de tambem, lá a diante, assentar como eu hoje, e seguil-os só com as saudades. É para então, meu bom amigo, que o esperam as recompensas interiores, as unicas de que ninguem nos pode defraudar. Solitario então, como eu hoje, V. S. conversará, mão por mão, e horas largas, com a sua consciencia; porque emfim, como diz um excellente Poeta, o bem que fazemos perfuma nos a alma; sempre d’elle nos lembramos o nosso poucochinho.

Entretanto, meu caro e honestissimo escriptor, nem então deixará o seu distincto entendimento de pagar, de algum modo, á Patria e á Humanidade o que todos lhes devemos. Do escripto, V. S. passará a obras mais positivas: do desejar e do aconselhar, ao emprehender e ao conseguir; pois que eu mesmo, sem ter ainda inteiramente despedido a Musa, a quem devi a pouca fama que me deram; sem ter renunciado o meu logar no banquete commum dos escriptores conterraneos, já me acho, de feito, e com todas as veras, empenhado n’estas menos brilhantes, mas não menos uteis, tarefas do nosso seculo.

Os meus poemas hoje são as escolas, os methodos melhorados de ensino, a instrucção e civilisação dos operarios, a esmola da doutrina ás pobres almas infantis; porque a doutrina é moeda sem a qual esses pobresinhos nunca chegariam, em tempo algum, a poder mercar felicidade para si, nem para as suas mulheres, nem para os seus filhos, se Deus lh’os der, nem para a sua Patria.

Mas... este campo em que entrava agora é vasto; deixemol-o para outro dia. Eu lhe contarei, para os seus leitores e nossos amigos, o que n’este sentido já tenho feito com admiravel fortuna; e o mais, e muito mais, a que se estendem os nossos projectos, que a Providencia, segundo espero, ha-de continuar a favorecer.

De V. S. etc.
A. F. de Castilho