Não ha grande virtude nem grande crine, que antes de ser obra não fosse vontade, e antes de vontade pensamento, e antes de pensamento embrião de ideia; é o pontinho negro e imperceptivel no horizonte, nuncio do tufão que revolve mares e afoga armadas, varre a terra, arranca e arrebata animaes, arvoredos, e habitações.

De duas causas, só, proveem quantos males commettidos por homens se podem no mundo deplorar: uma são as ruins vontades, as paixões, os interesses mal entendidos; a outra, a ignorancia, e os erros que d’ella nascem, sendo esta segunda muitas vezes (e quasi sempre) a que virtualmente contém em si a primeira.

O Adão da maldade é o absurdo; instruir é fazer a cura adiantada.

Não são os terrenos desmoitados e lavradios os que dão plantas venenosas, reptis peçonhentos e feras bravas; formosuras e suavidades com a luz se criam, assim na alma como na Natureza.

Metter conhecimentos no Povo devêra ser o empenho dos empenhos para todo o Governo, que tivesse por norte a civilisação. Não é torcendo, decotando, nem enxertando, que se melhora a arvore, que por dentro está enferma, mas ainda não de todo contaminada; é cavando-lhe e medicando-lhe a terra, em que as radículas invisiveis estão de dia e de noite bebendo caladamente.


¡Quantas desaventuras na vergonhosa historia que vos acabo de contar, nascidas todas de ignorancia!

Um povo laborando em terrores, por julgar existente o que nem sequer era possivel.

D’aqui, odios atrozes contra uma pobre mulher, que n’isso de maleficios, de que a accusavam, não era mais incursa do que vós e eu.

Logo, ella morta do modo mais afrontoso; e com um filho nas entranhas; e com um marido ao lado, que lhe não pode acudir, que ao desamparo de viuvo sentirá accrescer-lhe o opprobrio de conjugicida.