Outra mulher, tornada a subitas e involuntariamente assassina; arrastada de sua casa, onde era procurada e festejada pelos pobres, e de sua terra que a citava com ufania, para uma prisão, para um tribunal, para a publicidade do odio, para todas as humilhações da justiça, para a eterna agonia que precede a leitura da sentença.

Além d’estas duas casas, abaladas ou destruidas, seis homens, ou chefes ou filhos de seis outras casas, passando eguaes amarguras, eguaes transes, depois de um anno sem liberdade na sentina moral da cidade, chamada cadeia.

¡Que de dias e de noites já perdidos sem remedio para esta gente! ¡e quantos annos, talvez, do seu futuro já devorados pelo desgosto! ¡Que de despezas inesperadas! ¡que de transtornos nos negocios, nos projectos, nas relações! ¡que brechas na reputação, e talvez na moralidade, pelo trato de annos com entes corrompidos e perversos, em ocio já de si corruptor, e com os brios quebrados, pelo desprezo de quantos viam tranzitar por diante das suas grades!

Todos esses desconcertos, e os milhares de outros que d’elles se haverão originado, ¿d’onde provieram? de um erro; como o erro, da ignorancia; a ignorancia, da falta de educação publica; e esta do vergonhoso e criminoso, do vergonhosissimo e criminosissimo desleixo de legisladores e governantes.

Para tudo ha Leis; para tudo se andam ellas de continuo a refazer e emendar; mas o codigo cabal, judicioso, sincero, franco, inexoravel, que obrigue todos os cidadãos a aprender, para o serem, e para serem homens; ¿esse código onde o temos? ou quem pensou nunca em o pedir, quanto mais em o fazer?

Se alguem quizer edificar na cidade o seu predio fóra do alinhamento e risco municipal, achará quem lh’o coarcte. Se se espairecer nu pela praça em dia ou noite de verão, irá prezo, quándo menos por louco. Como estes, mil outros actos, natural e essencialmente indifferentes, são todavia cohibidos por providencias legislativas.

¿E a minha alma? ¿Esta parte optima de mim mesmo, nascida com a maravilhosa faculdade e com o desejo instinctivo de se aperfeiçoar, a minha alma, hei-de poder deixal-a, de poisio, sem que me constranjam a cultival-a, eu, que para ter obstruida ou immunda a minha testada não sou livre?!!

¿Hei-de poder condemnar o espirito de meus filhos a uma infancia eterna, eu, que não sou livre para lhes mutilar um braço ou um só dedo?!

Dizer-se que ha-de o fisco extorquir-me do producto do meu suor, o que ás vezes me não sobeja, para occorrer ás necessidades do Estado, e que o Estado me não ha-de compellir a ter riquezas moraes para com ellas ajudar o patrimonio da felicidade commum!...

A soltura do viver silvestre não m’a perdoariam; ¡e o conservar silvestre o entendimento, e conseguintemente silvestre e indómito o coração, com tão estupida magnanimidade m’o relevam!!!...