Vasta e difficil é a conquista de que se trata; nem elles sem nós, nem nós sem elles a perfariamos. Venha de cima o favor; venham por baixo as diligencias, que sem suor de trabalhadores, e influxos de sol e ares, não ha colheita que se abençôe.
Por emquanto o que mais urge é, como vos dizia, crear no Povo cubiças, ou mesmo veleidades, de se instruir (quando mais não seja), e deparar-lhe, quando não fontes caudaes para essas sêdes, ao menos alguns caritativos poços, como os dos Arabes nos desertos; quero dizer: á falta de escolas do Estado, com excellentes mestres e grandes meios, ensinosinhos particulares e gratuitos.
Esta ideia, que não é minha, nem de ninguem em particular, sim do seculo, já por ahi vai lavrando; e com tão boas mostras, que, a não vir saraivada que a destrua, ainda esta Ilha tem de ser apontada e seguida como exemplar.
¡Que de escolas gratuitas já nascidas e pegadas no seio da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes! ¡Que de alumnos já aproveitados e instruidos por cada uma d’ellas! ¡Que de outras já a rebentarem pelas vossas villas, e até em aldeias! Os factos que d’este genero me teem vindo ao conhecimento são para grandissima consolação, e para se registarem com summa ufania. ¡Oh! prometto-vos que ainda o hei-de fazer. Os nomes d’esses mancebos generosos, e os d’esses poucos Parochos, que assim acodem ao pregão do seculo, aos gemidos da necessidade, e aos clamores da sua consciencia, ou eu hei de todo esquecer, ou hão de ficar lembrando.
Assim, que por esta parte não ha senão que dar muitas graças, e confiar no contagio santo. As escolas espontaneas brotam, e estão crescendo; logo, hão-de continuar a crescer e multiplicar; e não só para leitura, escrita, e contas, mas para outros generos e graus mais subidos de instrucção. Se o duvidasseis, apontar-vos-hia mesmo para fóra da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes: para a dos vossos amigos especiaes; para a Promotora da Agricultura Michaelense, com os seus cursos de Historia natural, de Botanica, de Physica, e de Chymica. Ha tráfego intellectual, ha; e já superior ao que poderia presumir-se; mas, para que elle dure e se augmente, é que é preciso que os necessitados de aprender conheçam a miseria e vergonha da sua mingua, desejem, queiram, e procurem remedial-a.
Hoje em dia, a nossa maior carencia não é já tanto de quem tenha vontade de ensinar, como de quem se afervore por aprender. Ha proporcionalmente mais quem dê, ou quem offereça, do que quem peça, ou quem acceite.
¿E como se hão-de ir abrindo as tantas escolas de que ainda havemos mistér, se do nada se não forem evocando os rogos e votos dos que as devem frequentar?
O mestre é um medico; o discipulo, um doente. Em quanto o doente se não conhece como tal, em quanto não deseja saude, em quanto não implora soccorro, o medico, ainda que perto more, não apparece para o salvar. Seja o nosso ponto, primeiro que outro nenhum, accender em vós mesmos e em vossos filhos o gosto da leitura; d’elle, como o effeito da causa, virá tudo mais.