As ponderações, que já vos fiz, e vos tenho repetido, sobre as conveniencias do ler para o aperfeiçoamento moral, industrial, e agricola, para augmento dos haveres, da saude, dos deleites, e da convivencia, são muito certas, muito claras, e muito irrefragaveis; mas receio que não tenham, só per si, efficacia bastante para vos vencer a natural inercia. Quer-se uma persuasão mais immediata, um argumento, embora menos forte, porém mais presente, e, como tal, menos resistivel. N’uma palavra: quer-se que o ler, já pela sua propria formosura, vos namore, independentemente do que promette e pode dar.
¿Sabeis vós que aquelle popularissimo livro de Carlos Magno, apesar das suas rematadas loucuras, e nenhuma substancia, tem sido o mais poderoso incentivo de Instrucção Primaria? Pois é assim. Até nos serões das roças e engenhos de assucar, pelos sertões mais sáfaros do Brazil, o Almirante Balão, os Doze Pares, e a Princeza Floripes, dando horas de encantamento a corações simplices e espiritos boçaes, crearam n’elles a inveja, a sêde, o estudo, e logo a sciencia, o gosto, e o costume do ler.
O negro que sabe solletrar por aquellas paginas de maravilhas, é respeitado e festejado por todo o auditorio; centenares de negros e negras, de todas as edades, lhe pendem dos labios sem respirar, horas inteiras; se elle cahir doente, cegar, morrer, ou fôr vendido, ¿quem lhes fará esquecer as penas e trabalhos do dia com taes relações estendidas pela noite até deshoras?
É por isso, e para que tamanha calamidade se não possa nunca realisar, que todos ambicionam, e muitos logram, aprender, á custa do repoiso e do somno, a maravilhosa Arte, por quem as memorias do Arcebispo de Turpim ainda estão vivas.
O que nas roças do Brazil tem operado o Carlos Magno, tem-n-o egualmente feito, entre os negros das colonias francezas, aquella prosa-poema, aquelle poema-flor, aquella flor sempre orvalhada de lagrimas, Paulo e Virginia.
Á vista d’estes dois factos, ¿por que não aconselhariamos, se procurasse introduzir o costume das leituras em commum, semi-publicas, ou publicas, nas aldeias e villas, e até nas cidades?
¡Que agradavel, que util, que nobre exercicio para o leitor! ¡Que magisterio tão facil de exercer! ¡Que derramar de beneficios tão sem custo! ¡Que victorias sem combate! ¡e que triumphos sem odios!
Com esta bella usança, se formaria entre nós essa arte preciosa de ler, recitar, e declamar; mais conhecida, praticada, e presada pelos antigos, do que em nossos tempos. Os melhores livros dos Romanos, ¿não sabemos nós que eram lidos por seus autores, ora em suas salas perante convidados, ora perante o povo nos theatros? ¿De poetas e oradores Gregos não alcançamos outro tanto? ¿e não é verosimil que por ahi se ajudariam as Lettras dobradamente a subirem a tamanha perfeição? á uma, porque o escriptor, para entrar em duello com o juizo publico, se armava de ponto em branco, e em cada um d’esses combates aprendia e se amestrava; e á outra porque das suas coroas de loiro forçosamente haviam de cahir bagas, que produzissem novos loiros para futuros émulos.