Ainda que outro bem se não seguira de taes leituras, já grandemente valêra a pena de as crear e as generalisar, se o nome de pena podera caber ao que é só goso.
Mas o principalissimo proveito de tal praxe é o dos ouvintes. Pessoas que nunca leram, nem sabem; outras que não teem livros; outras para quem o mais pequeno volume é um labirynto inextricavel e sem sahida; outras que na solidão de um aposento silencioso nem com Virgilio caberiam, e para quem a sociedade é condição impreterivel do agrado; todos acudiriam á leitura em commum.
Todos lhe applicariam mais attenção, porque a attenção é tambem contagiosa. Todos comprehenderiam melhor, e gostariam mais a fundo, porque entendimento e coração, tudo em nós, não sei como, cresce e se melhora na proporção do numero de cabeças que em derredor trabalham no mesmo objecto, dos rostos, ouvidos, e olhos, que escutam as mesmas palavras, dos peitos que identicas paixões comprimem ou dilatam.
D’este modo tudo concorrêra para que o succo, expresso do livro por um leitor habil, fosse para cada um dos circumstantes o mais agradavel, o mais copioso, e o mais nutritivo, assim como para que a cubiça da leitura se pegasse aos que nunca a aprenderam; os que a aprenderam mal, se industriassem; e os que por perguiça lhe fugiam, chegando a reconhecer-lhe os feitiços, se lhe entregassem de corpo e alma.
Meus amigos, se no outro serão nós confiavamos em que não faltaria quem se offerecesse a vos reger escolas, ou pelo menos o acceitasse quando rogado, ¿como não teremos grande fé em que haverá de sobra quem para estas leituras se vos offereça? Um pequeno rol dos que poderiam ser, já vol-o eu apresentei; se vos não acudirem logo, ide-os vós desafiar, e ide affeitos, que vos não hão-de resistir. Não percais tempo; temos á porta as descompassadas noites do inverno.
O inverno é, sobre todas, a estação do espirito, do recolhimento, da casa, da sociabilidade.
No inverno o Sol, esse grande poeta de Deus, interrompe, para descançar, o seu poema de seis mil annos. A Natureza adormece. Tudo deserta dos campos: as aves, á busca de primavera; os gados, para a quentura do aprisco; os bois, para recobrarem força para a lavoira; os filhos das cidades, para os theatros e assemblêas; vós, para a abhorrida monotonia da lareira.
¡Um leitor! ¡um leitor! ¡o vosso Cura! ¡o vosso Escrivão! ¡o vosso Facultativo! ¡um de vós! ¡seja quem for: um amigo, que vos ajunte com um bom livro n’uma cosinha, n’uma sala, n’uma adega, n’um celleiro (¿que importa onde?)! ¡que vos leia, vos explique, vos oiça as duvidas, vol-as desate, ou vos ajude a desatal-as, vos ensine o que elle mesmo não sabia, vos descubra o mundo que nunca vistes, vos engolfe, pelas catacumbas encantadas dos seculos preteritos, vos leve a peregrinar pelo Universo fora, vos descortine cardumes de maravilhas em que nunca attentastes por terra e ceos, vos revele que tendes lá dentro um coração, vos infunda mais alto respeito de vós mesmos, mais sublime ideia de vossa alma e de vossos destinos, noções mais distinctas de vossos direitos e de vossos deveres, mais ternura para com a familia, mais aferro á Patria, e fraternidade para com o genero humano!
¡Um leitor! ¡um leitor¡ e o vosso inverno vai ser mais florido e harmonioso que a primavera; mais verde, luminoso e accezo que o estio; mais frutifero e scismador que o proprio outono.