*
Basta.
Esperemos ainda. Oremos sempre;
e talvez que não tarde a grata aurora,
em que, a adejar da serra pelos pincaros,
venha de longe a nuncia das venturas,
a pomba com o seu ramo de oliveira!...
Castanheira de Vouga
Maio de 1831.
V
A LYRA DO DESTERRADO
(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)
Era a noite dos finados;
sombria noite de outono.
Entre sinos acordados
lá jaz Roma entregue ao sono;
seus luzeiros apagados.
Do ceo pelo rôto manto
só brilham frouxas estrellas;
sai a custo o clarão santo
dos templos pelas janellas;
e Petrarcha vela emtanto.
Véla Petrarcha, e suspira
no leito amoroso e ermo;
olhos na véla que expira;
saudades no peito enfermo;
nem gloria sonha, nem lyra.
Qual raio sôlto de lua
por móveis aguas vibrada
n'um bosque inteiro flutúa,
tal adeja no passado
a saudosa mente sua.
¿Quem dirá seus pensamentos?
a douta lingua está muda.
¡Que paixões, que sentimentos,
no rosto, que aspeitos muda,
veem transluzir por momentos!
Ora é dor, ora é sorriso,
esperança, amor, transporte;
queixas, ternuras diviso;
desce aos abysmos da morte,
vôa aéreo ao Paraizo.
¡Não falar o Vate agora
co'os labios que move apenas!
¡Que torrente abrazadora!
¡que amor! ¡que incendidas penas!
¡quão nova a paixão não fôra!
Vai a noite adiantada;
humido vento assovia;
treme a luz quasi apagada.
Do grão Cantor que vigia
ferve a mente a sonhos dada.
—«Eís o templo conhecido
que os meus destinos encerra.
A mãe terna, o pae querido,
cá m'os tem no seio a terra.
Cá vi Laura, e fui perdido...
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Castanheira do Vouga