1830...(?)
VI
EPISTOLA
(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)
A minha primavera emfim renasce.
Té n'este horror selvatico dos montes
roupas traja nupciaes a Natureza.
O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,
tudo nos diz «amor»; dizem-n-o as aves
chalreando ao florir das alvoradas;
bala o rebanho alegre; armento o muge;
na folha nova zéphiro o cicia;
a camponeza em meio de mil flores,
que lh'o exhalam balsamico, o suspira,
e ao viçoso tapiz, á sombra vasta
macia e tentadora lança os olhos.
Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,
enleva a fonte e as arvores nocturnas,
cantando amor, da lua ao raio incerto,
lições que mais de um ente ao longe estuda
(e pratica talvez); em sons de lyra,
solitario eu tambem, lições de affectos
de cá te envio ao centro da cidade.
N'esse ruidoso vórtice de povo,
de vãos praseres, de negocios futeis,
a geral rotação te arrasta ás cegas;
é dever da amisade erguer-te aos olhos
luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas
pode não ver a táboa ás vezes perto;
pode a praia ignorar, e tel a em face.
Táboa amor te lançou da praia firme;
ledo e fausto Hymeneu te está chamando.
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VII
A ROMARIA
Lá vem Maio rosado. Já floreja
nas planicies, verdeja pelos montes;
é o mez de Amor, é o mez de Philoméla.
Aureo amanhece o dia suspirado
da romaria annual; léguas em roda
já tudo é festa, esp'rança, e regosijo.
As povoações, desertas. Por estradas,
por torcidos atalhos, por oiteiros,
correm de toda a parte ornados bandos.
Lá retrôa nos eccos aturdidos
a matinal girandola ruidosa;
acorda ao longe a torre com repiques;
um povo de cem povos misturado
enche a vozeada selva, a acceza ermida,
e de ondeado matiz cobre o terreno.
Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
triumphante bandeira alvi-cerúlea.
Vai e vem, ora chega, ora se allonga,
não está em nenhum sitio, e assoma em todos,
a alma da festa, a gloria do Gallego,
a aguda gaita túmida e franjada,
que ao rufado tambor sócia, repete
a moda velha e alegre, amor dos campos.
Em vidrado alguidar reluzem n'agua
os doirados tremóços, que afadigam
com compradores a afrontada tia.
As navalhas e anéis, o apito, o espelho,
se assoalham mais além; na alva toalha,
alva e folhuda, estão chamando o exul.
Em cima de seus carros triumphantes
os laureados tonéis, reis da alegria,
dão n'um fogo perenne a vida a tudo.
Aqui se ouve o descante ao desafio,
que a viola ora segue, ora acompanha.
Ali se apinham para ver as danças,
que a discorde rabecca entorta ás vezes.
Lá, se entorna o licor em puros vidros;
ao pé se adoça a fresca limonada.
Aqui se comprimentam; além chamam;
um se perde, outro se acha, outro convida.
Este corre; esta pára a ataviar-se,
por mostrar o cordão e o lenço novo.
Estirados na relva os velhos palram;
grita o rapaz. O amante, recostado
ao páu, por onde um braço lhe serpeia,
faz longa côrte á tímida futura,
que em resposta de amor lhe dá tremóços.
N'isto vôa o foguete, e atrôa as nuvens.
Lá sai a procissão; lá foram todos.
¡Ah! depois do jantar comido ás sombras,
cada um levará, volvendo a casa,
gratas lembranças para o anno inteiro.