¡Que férreos somos nós, que a um como vago
atiramos sem dó perdidos, mixtos,
o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros
arrojasse o que os seculos pouparam,
bronzes, escritos, marmores romanos,
ou, derrotando porticos, columnas,
theatros, colliseus, palacios, templos,
em serra inutil amontoasse as pedras,
¿quem não vertêra em lagrimas o sangue?
¡E ante a nossa affeição teem menos pezo
que as ruinas de Roma as que são nossas?!...
¡Dá-se tanto aos ditosos, aos contentes,
espectaculos, jogos, aureas festas,
jardins, parques!... ¡e aos miseros que gemem,
e aos peitos melancólicos, viuvos,
ha-de negar se um canto onde pranteiem!?...
¿De tanto mundo que pertence aos vivos
nada dareis aos seus antigos donos?
¡nem um torrão perdido, e uns troncos nullos?!...
*
¿Quando virá um dia, em que estes bosques,
semeados de tumulos não altos,
de lugubres saudades se povôem?
Então, a propria Morte, hoje tão sêcca,
terá sua grinalda; a dor, seu gosto;
e visitas o pó, e cultos o ermo.
*
Pelas noites mui placidas do estio,
ao duvidoso alvor da lua incerta,
bello será, sentado n'este sitio,
ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos,
o do casal, o morador na aldeia,
entrar chorando, e procurar seus mortos.
Aqui duas irmans resam de joelhos
sobre o seio materno sepultado.
Aqui o velho attento as contas passa
pelos dedos convulsos, e se encosta,
sem o saber, na fallecida esposa.
O filho aos pés da mãe co'os mais soluça
o Padre-Nosso apenas aprendido.
Deitado ao lado do submerso amigo,
o amigo devaneia antigos annos.
Por toda a parte, as lagrimas e affectos,
memorias doces, orações e esp'ranças.
*
¿E a quem não conviria egual retiro?
N'elle a tristeza encontraria um pasto;
a sciencia, reflexões; o vicio, escolhos;
a leviandade, assento; a desventura,
consolação; o amor, silencio e pranto.
Ensaiára-se o infante para a vida;
o velho, para a morte; o moralista
viria achar uncção para a verdade;
o orador, persuasões, ternura, encantos.
*