LAURINDO.

Pois se he certo, que amor não lhe tiveste, Porque falsas promessas lhe fizeste?

GALATÉA.

Porque assim o meu Ácis defendia Da vingança, que o vil lhe promettia.

LAURINDO.

Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!) Gerar amor, que nasce da ternura!

GALATÉA.

Sim, com rigor queria, que o amasse, E que o meu peito ao meu Pastor fechasse. Clamando irado assim: "Cruel Pastora, "Tu desprezas soberba, a quem te adora? "És toda do teu Ácis? Pois discorre, "Que ou tu has de ser minha, ou Ácis morre. "Dize, resolve já, ou vou matallo; "E o coração aos olhos teus mostrallo. Eu ante o monstro vil de crueldade, Que não cede á razão, nem á piedade, Rogo-lhe compaixão: não se enternece: Choro humilde a seus pés: mais se embravece. Eu delirava neste lance forte De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte. Ácis morrer por mim, sendo innocente! Não, por livrallo fiz-me delinquente. Com o tyranno usei de idéas novas Para dar-lhe de amor fingidas provas; Mas o meu firme peito era impossivel, Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel. Se nisto te aggravei, Ácis desculpa; Se eu delinquente fui, foi tua a culpa.

LAURINDO.

Nao chores, virtuosa Galatéa: De ti fazia mui diversa idéa; Bem que eu não sigo as linguas venenosas, Que as mulheres só tratão de aleivosas: Sei, que muitas o são, sim, não duvido, Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido; Mas contem-se as traições d'ellas, e d'elles, Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles. Tu, exemplar Pastora, mostrar queres, Que és a gloria, o modelo das mulheres: Que os falsos homens pódes doutrinallos; E com teu mesmo exemplo envergonhallos. Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado: Do teu Ácis feliz dá-me o cuidado, Que eu hirei procurallo: em mim confia, Que hei de tornar-te a noite em claro dia.