O Amor e as penas da Mocidade,
Chimera ou Sonho de cada dia,
Eram os themas que ella escolhia.

Porém um dia veio a Saudade,
D'olhos vidrados e humedecidos,
Poisar-lhe os dedos emmagrecidos…

Então, vibrando, toda chorosa,
Sob esses dedos, brancos de cera,
Mais angustiada nunca gemera!

E uma alma nova tão dolorosa,
Com tanta mágoa nella ressôa,
Que um ai supremo despedaçou-a!

Desde esse instante, nas minhas penas,
Sem essa corda que me sustinha,
—Pobre Saudade! chora sósinha…

Manhãs d'estio, tardes serenas,
Occasos d'oiro, nocturno ceu,
Para os meus olhos, tudo morreu!

Mas a Saudade, no meu tormento,
Geme e soluça com tanta mágoa,
Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'água,

E sem um grito, sem um lamento,
Minh'alma vive na dor que a enleia,
Como uma aranha na sua teia…

A minha Lyra tinha uma corda:
Emquanto moço tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa accorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguem a corda pode emendar…