A Dor, mal comprimida em gritos suffocados,
—O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume—
Ennublou muita vez os meus olhos magoados,
Mas se ao labio acudia, era apenas queixume…

Éstos do coração, sobresàltos do instincto,
—Amor ideal, vehemente impulso do desejo,—
Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto,
No meu verso expirar, como um simples arpejo.

Se a angustia me opprimia em continua tortura,
Para allivio a esse mal, que ninguem consolava,
Como alguem que a si proprio illudir-se procura,
Precisando de ouvir a minha voz—cantava!

Echo do meu soffrer, de tão fundo partia,
Que deixando ao passar todo o amargo travor,
Essa voz, rara vez, murmurando trahia
O secreto pungir da primitiva dor.

Mas de cada palavra ou gesto contrafeito
Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca
Os lamentos e os ais suffocados no peito,
Todos os gritos vãos que morreram na boca!

No escrinio da Canção as lagrimas vertidas,
Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma,
Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas,
A tremer no cristal transparente da Fórma.

Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste;
Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza;
A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste,
Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.

Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio
Da phrase que a primor o artista cinzelou,
Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio,
O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.

A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos;
Muda em graça verbal todo o grito pungente;
—Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos,
Que a um sopro vão partir da pupilla dormente…

Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento,
Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo…
—Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento
Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!