D'esse beijo profundo, as angustias e as dores,
Se em imagens procura o artista convertê-las,
Espinhos entrelaça em grinaldas de flores,
E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.

Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel,
O espirito banal, nunca pode sentir,
A mágoa que por trás da palavra insensivel,
Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!

Só almas d'eleição commungam no mysterio
Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova,
Como á flor que sorri num chão de cemiterio,
O amargo coração que se desfaz na cova.

Só ellas, através d'um molde tão restricto
Como esse em que a palavra as emoções fixou,
Alcançam entrever não sei quê d'infinito
No minuto de sonho em que a Dor se embalou…

A ARMADURA

Ao Dr. Góran Björkman

A ARMADURA

Desenganos, traições, combates, soffrimentos,
Numa vida já longa accumulados, vão
—Como sobre um paúl continuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.

E a cinza com o tempo attinge uma espessura,
Que nem os mais crueis desesperos abalam;
É como tenebrosa, impavida armadura
Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam.

Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava,
Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados;
Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava
Que nesse duro arnez se não faça em bocados.