E tudo, mesmo a Dor, nessa amplidão se esfuma,
Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol…
Toda a nuvem, de perto, é um farrapo de bruma,
A distancia, parece oiro e púrpura, ao sol!

Sob o contorno ideal que o espelho empresta á imagem,
Projectados ao longe, os tormentos e as dores
Surgem aos olhos meus na ilusão da miragem,
Como ruinas de sonho em que brotaram flores…

Ruinas que uma luz tão serena illumina
Como se as envolvesse um luar de esquecimento;
E é tão doce a illusão, que nessa hora divina,
Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!…

A AGUIA PRISIONEIRA

A Manoel da Silva Gayo

A AGUIA PRISIONEIRA

Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo,
Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!
E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,
Da jaula hedionda a férrea porta escancarou…

A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava
Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra,
Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava,
Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.

Mas na ancia de luz que a devora sem treguas,
Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia,
Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas,
Sem poder dissipar a treva que a rodeia.

E tão alto subiu no seu vôo desfeito,
Que de repente, não podendo respirar,
Sentiu que lhe estalava o coração no peito,
E veio aos pés do escravo exanime rolar…