Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade,
Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,
Quando julga atingir a suprema verdade,
No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!
A SELVA ESCURA
A João Chagas
A SELVA ESCURA
Perdi-me no caminho solitario
D'uma floresta immensa e fria…
Medrosa ainda, a Noite lívida descia,
E o clarão do luar, como um pranto mortuário,
Pelas folhas das árvores corria.
No silencio da Noite, o silencio da Selva
Enchia-se de vozes enigmáticas…
E os meus pés vacillavam sobre a relva,
Entre as sombras das árvores extácticas.
Numa clareira funda, aguas dormentes,
Como um lago lunar, tremeluziam
Nas lágrimas de luz, altas e ardentes
Que das estrellas pálidas caíam.
Nem ruido de mar, folhas ou vento…
O mystério, porém, da Noite e da Floresta
Enchia de terror meu pensamento,
Como um sopro boreal que me gelava a testa.
Não sei se era visão, filha do Mêdo,
Se verdadeira apparição nocturna;
Mas da sombra profunda do arvoredo,
Que o luar tornava muito mais soturna,
Vinham surgindo mysteriosamente
Phantasmas espectraes que eu distinguia
Através do sudário transparente
Como o primeiro alvorecer do dia…
E por deante de mim todos passavam,
E olhavam-me e choravam…
De mágoa ou compaixão,—não sei dizê-lo;
Mas tudo o que aos meus olhos evocavam
Parecia-me um longo pesadelo…
Eram os Sonhos, as Chimeras mortas
Na minha morta Phantasia,
Que do vasto sepulcro abrindo as portas,
Passavam nessa funebre theoria…
Projectos, Intenções, Ideias, Planos,
—Illusões d'um passado esquecido e desfeito,
Na areia que rolou da ampulheta dos annos
E que um vento de morte espalhou no meu peito.
Era a Noiva feudal esquecida a scismar
Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu,
Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar,
Como um tropheu perdido o espadim de Romeu!
Illusões juvenis d'odaliscas e fadas,
Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas,
E tu, Willi immortal das florestas sagradas,
Loira d'olhos azues, como duas estrellas!
Era a Glória, mas já sem a tuba estridente,
Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar;
Era a Ambição, captiva a sua asa fremente,
Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar.
Era o Orgulho… o Poder… a Riqueza… loucuras,
Chimeras juvenis do meu abril risonho,
Borboletas azues, larvas escuras
Que deslisaram no meu sonho…
Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos,
Por deante de mim, lentas, passavam…
E olhavam-me e choravam,
Como espectros de longos desenganos
Que os meus olhos das trevas evocavam…
E olhavam-me e choravam,
Sumindo-se nas sombras da floresta,
Aos primeiros clarões da madrugada
Como um rumor de festa,
Despertavam, partindo em revoada,
As aves a cantar. O sol rompia
E as derradeiras névoas dissipava…
Tudo cantava e ria!
Só eu chorava… só eu chorava…
Só no meu coração não despontava o dia.
Só eu chorava… só eu chorava…
Só eu soffria…
O LIVRO DA VIDA
A Antonio de Cardiellos
O LIVRO DA VIDA
Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia…
—Lia o «Livro da Vida»,—herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.
Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.