SÚPPLICA AO VENTO
A Luiz de Magalhães
SÚPPLICA AO VENTO
Grito ao Vento que passa a galopar na treva:
—«Escuta a minha dor!»—rouco, de braços hirtos,
A ver se elle ouve e ao longe esta Saudade leva!
«Meus queixumes, oh Vento, hão de em ancias ouvir-t'os
Esses campos que amei, vinhas, rios suaves,
Pomares, laranjais, bosques de louro e myrtos,
Onde, inverno e verão, nunca emmudecem aves,
Onde nunca se extingue o murmurar das fontes,
Todo o anno a correr entre rosaes e agáves…
Vento largo, que vens d'ignotos horizontes!
No teu rugido absorve o meu grito pungente!
Vae repeti-lo ao mar e aos pinheiraes dos montes,
Para tornar mais triste o seu gemer plangente,
Mais expressivo e humano o seu lamento amargo,
Como um echo, a expirar, d'esta noite inclemente!
Leva comtigo, oh Vento, este gemido ao largo,
A ver se nelle alguem a minha voz conhece,
Nessas terras de luz, sem hiemal lethargo,
Onde o Estio a cantar longos meses se esquece,
E onde o Sol não é só lampada que illumina,
Mas o Ágni creador que tudo anima e aquece!